Mesmo em meados dos anos 2020, o cinema nacional é alvo de inexplicáveis estigmas pelos próprios brasileiros, sendo taxado de unidimensional e apenas capaz de produzir comédias-pastelão e filmes criminais. Porém, esses comentários impregnados de um vira-latismo cultural são falaciosos em todos os âmbitos possíveis, considerando que o cenário da sétima arte no Brasil é considerado um dos melhores do planeta – e dotado não apenas de clássicos incomparáveis como ‘Deus e o Diabo na Terra do Sol’ e ‘O Pagador de Promessas’, como poderosos dramas contemporâneos como ‘Bacurau’, ‘Ainda Estou Aqui’ e ‘O Agente Secreto’ (estes últimos dois quebrando de vez a barreira internacional com um reconhecimento expressivo e merecido).
Perpassando pelos mais variados estilos artísticos, nossos realizadores são capazes de contar as mais diversas histórias sem dever absolutamente nada aos títulos do mainstream internacional. E, nesse tocante, somos convidados para uma instigante e emocionante narrativa regada a balas e a sangue com o suspense de ação ‘Rio de Sangue’. Estrelado por Giovanna Antonelli em uma distinção notável para sua carreira, o filme mergulha nos conhecidos tropos do gênero, abraçando as fórmulas para arquitetar uma funcional e frenética aventura pelo frondoso território amazônico que, apesar dos convencionalismos, não perde a mão em momento algum.

Na trama, Antonelli interpreta Patrícia, uma policial que perde o controle de uma intrincada operação e se vê jurada de morte pelo narcotráfico paulistano. Fugindo de um destino aparentemente inescapável, ela viaja para Santarém, no Pará, onde se reencontra com a filha, Luiza (Alice Wegmann), uma paramédica que faz de sua missão ajudar os povos carentes das tribos mundurucus, tentando se reaproximar dela. Porém, em meio a percalços e a intercorrências, a jovem parte em uma missão humanitária de duas semanas que arrasta Patrícia para uma luta contra o tempo para salvá-la quando Luiza é sequestrada por perigosos garimpeiros sedentos por poder e por controle.
Dirigido por Gustavo Bonafé, o longa se mostra apaixonado ao extremo por incontáveis incursões similares, como ‘Busca Implacável’ e ‘John Wick’, em que os protagonistas são motivados a mover céus e terra por aqueles que amam. E, seguindo os passos desses populares personagens, Patrícia é construída sobre uma estrutura quase monolítica, mas pincelada com falhas e desvios que a humanizam na medida certa para que se transforme em uma espécie de anti-heroína. Movida pelo trabalho e por um senso de justiça que muitas vezes a cega, Patrícia posa como uma mulher racional, mas rende-se ao emocional quando Luiza é raptada, driblando quaisquer obstáculos para entender como pode salvá-la.

Mais do que isso, a caracterização da protagonista apoia uma subtrama ambientalista que ganha força com o conflito entre os indígenas e os garimpeiros, colocando nos holofotes um problema sociopolítico que parece ter deixado de ter espaço na mídia. É a partir daí que Antonelli emerge como fio condutor, ao mesmo tempo consciente e inconsciente, que une as múltiplas engrenagens que se dispõe no projeto – entregando-se a uma poderosa atuação que traz homenagens a nomes como Alicia Vikander e Angelina Jolie, temperando sua atuação com sua própria identidade.
Wegmann, imbuída de uma ingenuidade que a torna oposto complementar de Antonelli, transforma Luiza em uma inevitável construção arquetípica, assim como Antonio Calloni e Felipe Simas como Polaco e Baleado, antagonistas que não pensam duas vezes antes de emular os tropos dos anos 1990 em atuações deliciosamente diabólicas, pautadas em extremos que oscilam da agressividade passiva a um animalesco ímpeto. Fidélis Baniwa, interpretando o moralmente ambíguo Mario, é escolhido como o improvável aliado que, funcionando como o narrador da história, tem assuntos inacabados com os garimpeiros e é arrastado para um vórtice de redenção. Cada um tem o seu momento de brilhar, sendo esquadrinhados o máximo que podem em um constrito espaço de pouco mais de uma hora e quarenta minutos.

Bonafé demonstra um cuidado considerável com a construção imagética, apostando em pontuais ousadias que incluem uma caprichosa paleta de cores que une a melancolia e a letargia do verde e do azul em contraste com a urgência dos tons vermelhos; e investidas que contam com plongées absolutos e planos-sequência que colocam um idílico cenário em rota de colisão com a interminável e cruel jornada em que Patrícia está. E, mesmo com a vastidão das florestas e dos rios que cerca os personagens, Bonafé também sabe como transformar esse panorama em uma labiríntica e opressora prisão.
‘Rio de Sangue’ pode carregar maneirismos de outros suspenses de ação, mas sabe como se portar em uma pragmática aventura que não dá um passo maior que a perna e que entrega o que promete, valendo-se do talento da equipe criativa e do elenco para nos entreter na medida certa.
Lembrando que o filme chega aos cinemas nacionais no dia 16 de abril.


