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Crítica | ‘GOAT’ tenta ser maior do que consegue – mas entretém como pode


Jordan Peele tornou-se um nome bastante expressivo do cinema contemporâneo, em especial dentro do gênero do terror. Fazendo sua estreia no circuito de longas-metragens com o aclamado ‘Corra!’, que lhe rendeu o Oscar de Melhor Roteiro Original, Peele se sagrou um cineasta recheado de ótimas histórias para serem contadas, trazendo o brilho de uma invejável originalidade a um gênero marcado por convencionalismos cansativos. Pouco depois, encabeçou os ótimos ‘Nós’ e ‘Não! Não Olhe!’, reiterando seu impacto no cenário contemporâneo, além de investir em sua carreira como produtor.

Este ano, Peele reuniu-se com o diretor Justin Tipping, conhecido por seu trabalho no drama ‘Kicks’, para um ambicioso projeto que convidaria os espectadores a mergulhar nas entrelinhas do mundo esportivo. GOAT, como ficou intitulado o longa-metragem no circuito nacional, funciona como um thriller que conta a história de uma jovem estrela do futebol americano que é acolhido por uma lenda do esporte – aceitando participar de um treinamento intensivo e cruel para se tornar o melhor de todos os tempos. Porém, apesar da ousada atmosfera a que nos apresenta, o filme não consegue explorar seu potencial por completo ao focar mais em estilo do que em conteúdo.



A trama é centrada em Cam Cade (Tyriq Withers), um jovem jogador de futebol americano que tem o desejo de se tornar um dos maiores esportistas da história. Alcançando uma popularidade considerável na liga universitária, Cam vê seu sonho se esvair pelos dedos após sofrer um acidente e ter uma concussão – algo que parece prenunciar uma prematura aposentadoria. Enfrentando um grande escrutínio midiático, que já anunciava a perda de um jogador com potencial admirável, e lidando com as disputas entre a mãe, Yvette (Indira G. Wilson), e seu agente, Tom (Tim Heidecker), ele é agraciado com uma segunda chance quando a lenda do futebol americano Isaiah White (Marlon Wayans) o convida para passar uma semana em sua casa, sob um treinamento intenso.

A princípio honrado pelo convite, Cam descobre que seu conhecimento sobre as engrenagens do mundo esportivo são muito mais complexas do que imaginava, escondendo segredos obscuros que, pouco a pouco, vêm à tona. Treinando como nunca e submetido a testes inimagináveis que não apenas exploram seus limites físicos, como os psicológicos, Cam navega pelos sacrifícios que Isaiah fez para se tornar o G.O.A.T., tentando compreender que ele o escolheu como herdeiro e como o novo portador desse importante manto. Entretanto, ele não pode deixar de sentir que está sendo arrastado para algo perigoso a cada dia que passa naquela suntuosa mansão no meio do deserto e à medida que conhece nomes como Elsie White (Julia Fox), esposa de Isaiah, e Malek (Maurice Greene), um fanático e insano treinador.

O projeto estruturado por Tipping, que coassina o roteiro ao lado de Skip Bronkie e Zack Akers, parte de uma premissa muito interessante que é fomentado no primeiro ato de maneira bastante sólida, esquadrinhando os tropos do suspense para nos preparar à alucinante jornada enfrentada pelo protagonista. Aliando-se à dissonante trilha sonora de Bobby Krlic e à fotografia de Kira Kelly, que se torna mais opressora conforme a história se desenrola, cada elemento visual urra em metáforas que não apenas analisam a propensão humana por um comportamento autodestrutivo e que não se limita apenas ao cenário esportivo, e sim a qualquer faceta que trate o indivíduo como um produto mercadológico da indústria.

O problema é que o vibrante e sombrio espetáculo visual que o longa nos entrega, em meio a uma simetria estética que entra em conflito com o desequilíbrio psíquico dos personagens, não é forte o suficiente para ofuscar os claros problemas estruturais do roteiro – que começa de maneira forma, mas não sabe o que fazer com o terreno preparado. Dividido em sete capítulos que se tornam cada vez mais sangrentos, procurando uma simbologia divina e dêitica que nunca transpassa a mensagem como deseja, o filme mostra que tem disposição de sobra para aprofundar os arcos dos personagens, mas transforma-se em uma circinal bola de neve que explode em uma resolução quase ocasional.

Enquanto o dinamismo não é afetado, não podemos deixar de sentir falta de um comprometimento maior, principalmente considerando os talentos reunidos para darem vida ao enredo. De um lado, Wayans entrega a performance de sua carreira, dominando os holofotes com firmes rédeas e com um feroz apreço pelo papel que encarna; Withers, por sua vez, encanta os espectadores ao singrar entre o que Cam deseja e o que foi lhe colocado na mente como objetivo pessoal, como se precisasse honrar um legado que lhe foi dado. E, à medida que seu personagem percebe que foi preparado para aquele exato momento, ele irrompe em um tour-de-force espetacular e catártico.

De outro lado, a pretensão metafórica de que o projeto se vale toma proporções infindáveis e se perde em uma tentativa falha de esquadrinhar muitos temas de uma só vez. Em outras palavras, seria melhor ter visto um carinho maior para os personagens que, pela falta de outra expressão, são desperdiçados. Eventualmente, GOAT tem uma necessidade constante de se mostrar superior – e é isso que o deixa no meio do caminho.

Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.
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