Crítica | Graças a Deus – Denúncia de Abuso de Poder Religioso no Premiado Filme de François Ozon

As religiões desempenham um papel  relevante na construção da sociedade e da personalidade (individual e coletiva) daqueles que as seguem. Conhecendo a história mundial, é fácil perceber que a religião, enquanto instituição, foi determinante no desenho histórico do mundo. No caso europeu, o catolicismo, sempre muito forte, foi a diretriz constituinte da estrutura social e, nesse contexto, um grande poder é atribuído a seus membros mais notórios (tanto no nível mundial, quanto na escala local).

A imagem do líder religioso é entendida como aquela mais próxima ao divino e seus ensinamentos, sendo os padres os responsáveis por levar a suas comunidades aquilo que nos foi deixado de lição por Cristo, transmitindo um conhecimento milenar para diferentes gerações de fiéis. E (como já nos ensinou o tio Ben Parker) com esse grande poder, vem junto uma enorme responsabilidade sobre a vida desses indivíduos, especialmente quando estamos falando de crianças em pleno processo de formação de caráter. Ser a figura que representa o equilíbrio e o encontro entre o divino e o terreno representa um desafio, que inclui sacrifícios e privações que nem sempre  estão ao alcance desses líderes. A prática celibatária envolve um grande domínio do impulso sexual.  A união entre o elevado poder sobre os fiéis e a falha no controle dessa energia pode levar à desvirtuação. Não se deve, obviamente, generalizar. Mas os escândalos envolvendo lideranças religiosas e abusos são, infelizmente, recorrentes. E esses dramas reais são material para o desenvolvimento de obras cinematográficas importantes, por levar ao grande público questões que precisam ser trabalhadas enquanto sociedade.

Graças a Deus‘ (Grâce à Dieu), o longa-metragem dirigido por François Ozon, é mais um drama que trata dessa temática densa, trazendo à cena histórias reais. Com o enfoque principal nos impactos dos abusos na vida de indivíduos adultos, o filme fala da quebra de tabus e do poder da instituição católica frente ao surgimento de casos de pedofilia na cidade de Lyon (França).

Já casado e com cinco filhos, Alexandre (Melvil Poupaud) descobre que, após anos afastado, um antigo padre retorna à arquidiocese de Lyon. Padre Preynat (Bernard Verley) desperta em Alexandre um sentimento que mistura revolta por seu passado e medo por seus filhos, pois, apesar do que lhe aconteceu na infância, ele se manteve dentro da igreja católica e nela vinha criando seus filhos. Então, Alexandre decide romper o silêncio, à revelia da vontade de seus pais, e denunciar os abusos sofridos nos acampamentos de escoteiros liderados por Preynat. Com uma carta escrita à Igreja, ele inicia uma árdua campanha pelo afastamento do padre pedófilo, porém, sem sucesso. O comportamento das lideranças locais, em especial do cardeal Barbarin (François Marthouret), mostra que a orientação é abafar o caso. Ao se dar conta disso, Alexandre toma mais uma atitude corajosa, incentivado por sua esposa e filhos, reabrindo uma investigação que traz à luz diversos outros adultos na mesma condição que a sua.

O ingresso de outras vítimas na história dá destaque à três nomes: Alexandre, François (Denis Ménochet) e Emmanuel (Swann Arlaud). Três indivíduos completamente diferentes, com estruturas familiares diferentes, e sobre os quais os impactos dos abusos atuaram de forma intensa e diversa. François, assim como Alexandre, era um homem casado e com filhos,  mas  ao longo de todo o seu processo teve o suporte de um seio familiar amoroso e atento. Emmanuel, por sua vez, um homem pobre, filho de pais separados e dentro de uma relação tóxica com sua parceira, é, dentre as vítimas apresentadas, aquele que desenvolveu os desdobramentos físicos mais sérios devido aos abusos sofridos. Os três – e as demais vítimas que vão se juntando à causa – criam uma rede de denúncias, forçando a arquidiocese, na figura do cardeal Barbarin, a se posicionar publicamente.

O filme de François Ozon trata não só do impacto psicológico desse tipo de relação de poder doentia e abusiva, como também expressa muito bem as dificuldades de se fazer justiça frente a uma instituição tão forte, com meios de proteção eficientes. Essa dificuldade se reforça pelo teor das acusações que, invariavelmente, consiste em um elevado grau de exposição das vítimas e suas famílias. Mas, ao considerar que o lançamento do filme na França (em fevereiro de 2019) ocorreu dias antes da condenação de Barbarin, o longa-metragem mostra que a justiça é possível e que mobilização é fundamental.

O roteiro e a direção Ozon conseguiram dar uma densidade gradativa ao filme – uma opção interessante, comprovada pela apresentação do  cotidiano dos personagens, com o áudio dos e-mails e cartas enviados por eles, mostrando que a vida corre em paralelo à luta travada. Porém, com o decorrer na narrativa,  as questões relacionadas à causa passam a ganhar mais tempo de cena, dando a noção exata do peso que todo esse cenário passa a ter na vida das vítimas que visitaram esse passado doloroso.

A cenografia não inova, o que é de se esperar de um filme baseado em fatos reais. No entanto, se percebe a tentativa de capturar as diferenças entre os padrões de vida dos protagonistas, sem fugir do que se espera de famílias francesas dentro de seus estratos sociais. Mesmo dentro desse proposta, o trabalho de fotografia consegue entregar belas transições de cenas, especialmente as externas.

O longa-metragem foi premiado este ano com o Urso de Prata do Festival de Berlim. É um filme duro, que pode ser um gatilho muito ruim para pessoas que sofreram algum tipo de abuso (dentro e fora da igreja). O retrato feito por François traz novamente ao cinema essa denúncia que precisa ser sempre reforçada, mas cabe o cuidado por parte do público de não fazer dessa experiência um agravamento de questões sensíveis. Por fim, registramos que não se deve estigmatizar a fé, as lideranças religiosas ou mesmo a instituição. Mas é fundamental que seja cobrada a responsabilidade a quem lhe é de direito, a fim de coibir práticas abusivas em qualquer contexto social.

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Lorena Freitas

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