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Crítica | Greta – Marco Nanini vive homem gay solitário em emocionante drama


Aos setenta anos, quais são as perspectivas de vida de uma pessoa? Viajar, se aposentar, encontrar um novo amor? E se essa pessoa for um homem gay, será que as perspectivas são as mesmas? É exatamente nesta mudança de ponto de vista que se embasa o sensível drama ‘Greta’.

Na pele de Pedro, um enfermeiro solitário, vemos um Marco Nanini completamente desconhecido pelo grande público: frágil, tímido, cansado, melancólico. A capacidade de reinvenção desse ator é inacreditável, e hoje, no auge dos seus setenta e um anos, topa encarnar o papel de Pedro, um homem gay cuja melhor amiga, Daniela (o alívio cômico desbocado, interpretado por Denise Weinberg) tem um problema de saúde grave e precisa ser internada imediatamente.



Só que o hospital público está lotado, e Pedro decide dar alta para um paciente para liberar a maca. Entretanto, a vaga é na ala masculina, e Daniela (que é uma mulher trans), se recusa a ser internada entre os homens. Enquanto os dois discutem sobre a internação, um perigoso assassino dá entrada no hospital, e acaba pegando a maca livre. Sem opção, Pedro decide ajudar Jean (Démick Lopes) a escapar para retomar a maca, porém o rapaz está muito ferido, por isso Pedro decide escondê-lo em sua casa. Começa, assim, um romance entre os dois.

Para retratar essa história sensível e tristíssima, o elenco do longa se destaca na capacidade de entrega. Todas as atuações estão condizentes com os personagens, com destaque para a simpaticíssima Greta Starr, que constrói Meire, uma mulher cis extremamente mau humorada e mandona. Marco Nanini e Démick Lopes conseguem construir uma relação afetiva natural (insegura no início, à vontade com o passar do tempo) entre dois homens com origem e educação diferentes, porém igualmente abandonados na cidade grande. As cenas de nu frontal e de sexo são retratadas com naturalidade quando há afeto entre os personagens, e com lascívia quando é apresentado o submundo marginalizado do universo LGBTQ+.

A câmera do diretor Armando Praça é colocada sempre em pontos fixos, conduzindo o espectador a direcionar sua percepção sempre para quem está em evidência na cena, como se estivéssemos escondidos daquilo que se desenrola na camada principal da trama. A possível limitação de espaço das locações pode ter forçado esse condicionamento, e, às vezes, as cenas ficam em um ângulo meio cansativo.

Vale apontar que ‘Greta’ é baseada numa peça de teatro dos anos 1970, que tinha como molde a pornochanchada bem escrachada e cômica. A troca para o gênero dramático na adaptação cinematográfica foi muito acertada, pois hoje é preciso dar voz a esses sujeitos feitos invisíveis pela sociedade ocidental.

Em pouco mais de uma hora e meia de filme, o espectador se depara com inúmeras questões que não são debatidas com frequência na sociedade – e a imersão nesse universo ainda desconhecido pelo grande público é uma das grandes sacadas do longa. Se o imaginário coletivo tem como estereótipo os gays com eternos corpos sarados e jovens, o que acontece quando eles envelhecem?

Há ainda espaço para amor, carinho e afeto na terceira idade? E como a sociedade recebe essa parcela da população? Será que ocorre um olhar mais atento às necessidades específicas desses indivíduos? O grande mérito do filme é fazer pensar sobre as questões sensíveis do ser humano, independente da orientação sexual, e o fato de uma história como ‘Greta’ chegar ao circuito comercial das salas de cinema é uma grande vitória.

 

Janda Montenegrohttps://cinepop.com.br
Janda Montenegro é doutora-pesquisadora em Literatura Brasileira no Programa de Pós-Graduação em Letras da UFRJ com ênfase nas literaturas preta e indígenas de autoria brasileira contemporâneas. De origem peruana amazônica, Janda é uma palavra em tupi que significa “voar”. Desde 2018 trabalha como crítica de cinema nos portais CinePOP e Cabine Secreta. É curadora, repórter cultural, assistente de direção e roteirista. Co-proprietária da produtora Cabine Secreta e autora dos romances Antes do 174 (2010), O Incrível Mundo do Senhor da Chuva (2011); Por enquanto, adeus (2013); A Love Tale (2014); Três Dias Para Sempre (2015); Um Coração para o Homem de Lata (2016); Aconteceu Naquele Natal (2018,). O Último Adeus (2023). Cinéfila desde pequena, escreve seus textos sem usar chat GPT e já entrevistou centenas de artistas, dentre os quais Xuxa, Viola Davis, Willem Dafoe, Luca Guadanigno e Dakota Johnson.
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