Filme exibido na 49ª Mostra de São Paulo.
Guillermo del Toro sempre trouxe uma visão única a cada uma de suas produções: desde o clássico ‘Cronos’, passando pela fábula bélica ‘O Labirinto do Fauno’ e culminando nos vencedores do Oscar ‘A Forma da Água’ e ‘Pinóquio’. Acompanhado de suas claras predileções pela fantasia e até mesmo pelo realismo fantástico, Del Toro explora a complexidade da psique humana através de narrativas que singram entre o universal e o particular – o que tornou sua decisão de adaptar o clássico romance moderno ‘Frankenstein’, de Mary Shelley, ainda mais interessante e ambiciosa.
A releitura do cineasta acompanha Victor Frankenstein (Oscar Isaac), um ousado médico que foi criado a mãos de ferro pelo pai e que passou sua infância e sua adolescência lidando com o trauma de ter perdido a mãe e de ver seu irmão mais novo ser acalentado pelas frias mãos de seu outro progenitor. Envolvendo-se com a medicina e com os detalhes da anatomia do corpo humano, Victor desenvolve uma afeição dêitica e divina pelo controle da vida e da morte – e dá início a um experimento quase blasfemo de construir seu próprio indivíduo. Utilizando partes de cadáveres para compor sua “obra-prima”, o cientista é financiado pelo impetuoso e egocêntrico médico Henrich Harlander (Christoph Waltz) e auxiliado pelo irmão, William (Felix Kammerer).

Após uma corrida contra o tempo e contra a inevitabilidade da morte, Victor adota a premissa “do pó viestes, ao pó retornarás” como um mote para sua perigosa conquista – que toma forma em uma grande e monstruosa criatura (Jacob Elordi). A princípio encantado com seu experimento, ele percebe que cometeu um erro ao ver que sua criação não passa de uma tentativa falha de tomar as rédeas da criação humana, resolvendo transformá-lo em um bode expiatório para seus caprichos e tentando eliminá-lo ao destruir o lugar em que nasceu. Porém, a pretensão desmedida de Victor culmina em um ser imortal, extremamente forte e que, desprovido de amor, se lança a uma vingança pessoal de encontrar seu mestre e obrigá-lo a lhe dar a felicidade que foi negada.
Estendendo-se por duas horas e meia, ‘Frankenstein’ funciona em sua completude e supera as nossas expectativas por se configurar como um encontro entre expressão artística e criatividade narrativa. Mergulhando no universo criado por Shelley e trazendo o melhor da fantasia e da ficção científica às telonas, Del Toro arquiteta uma ópera gótica que, apesar dos poucos deslizes, usa e abusa de um time de atores estelar que ainda inclui Mia Goth e Charles Dance, e garante uma experiência sensorial que nos leva de volta no tempo e nos arremessa em uma potente, vibrante e apoteótica reflexão sobre o que significa remar contra as leis da natureza em si.

Como já mencionado, o filme bebe de uma paixão pelo gótico e pelas fábulas do século XIX que, de maneira soberba, transforma um projeto em um arauto propositalmente anacrônico. Desde imponentes estruturas que rasgam os céus até uma fotografia épica assinada por Dan Laustsen – que sabe muito bem dosar o intimismo dos personagens e o macrocosmo que permeia o arco de cada um deles -, as engrenagens estéticas da produção são irretocáveis e reiteram Del Toro não apenas como um dos diretores mais aclamados da atualidade, mas como um artista plástico que sabe como conduzir e como impactar os espectadores.
Também responsável pelo roteiro, o realizador constrói uma carta de amor para Shelley e para o cinema em si. É claro que alguns aspectos falham em cumprir com o prometido ou exageram demais na emoção fomentada – com menção ao final do ato de encerramento, que pende muito para o melodrama e que se torna redundante pela antêmica trilha sonora de Alexandre Desplat. Porém, os pontuais deslizes não tem força o suficiente para ofuscar a inebriante e inegável beleza que se ramifica através de diálogos ostensivos e teatrais, tangenciando uma altivez shakespeariana que acompanha a tragédia sci-fi de Shelley.

Isaac navega pela sanidade e pela loucura ao investir em cada detalhe da controversa personalidade de Victor, oferecendo uma rendição marcada pela frustração e pelo desejo da conquista – não só sobre a ciência e a fé, mas sobre os demônios que insistem em assombrá-lo décadas a fio. Kammerer, Dance e Goth fazem um bom trabalho ao materializar arquétipos da sociedade londrina da época – ainda que esta, dando vida à jovem Elizabeth, noiva de William, não tenha espaço o bastante para ser aprofundada, tornando-se um tanto quanto descartável para a narrativa. Mas é Elordi, que alcançou fama mundial por ‘Euphoria’ e ‘Saltburn’, quem usurpa os holofotes transmutando-se na criatura de Frankenstein e rendendo-se a uma visceral performance que nos deixa vidrados em cada uma das sequências em que está – e mostrando que seu potencial como ator é quase infinito.
‘Frankenstein’ surpreende ao não focar apenas no estilo, mas ao trazer um poderoso conteúdo que é abraçado por atores e atrizes de peso e por um time habilidoso que não deixa o ritmo cair em momento algum. Com exceção dos minutos finais, Guillermo Del Toro acerta mais uma vez com uma paixão cinematográfica aplaudível e que torna o título um dos mais honestos de sua carreira.

