Crítica | ‘Homem-Aranha: Um Novo Dia’ resgata a essência do herói em aventura ALUCINANTE

Quando Tom Holland fez sua estreia no Universo Cinematográfico Marvel, há 10 anos, a ideia, segundo o CEO do estúdio, Kevin Feige, era que o público pudesse crescerjunto com Peter Parker ao longo de sua jornada como Homem-Aranha. No entanto, com a chegada da conclusão da chamada Saga do Infinito, o garoto teve seu lado humano deixado mais de lado em prol da faceta do herói. Os fãs viam o Homem-Aranha em cena, mas faltava Peter Parker. Isso começou a mudar há cinco anos, com Homem-Aranha: Sem Volta Para Casa. Ali, porém, a jornada de amadurecimento do herói do MCU acabou sendo ofuscada pelas voltas de Tobey Maguire e Andrew Garfield aos papéis que fizeram deles ícones da Cultura Pop.

Mais do que isso, faltavam nos filmes elementos clássicos tão inerentes a esse personagem, que talvez expliquem o motivo de ainda haver uma certa rejeição de parte do fandom à versão de Tom Holland. O diretor da primeira trilogia do Homem-Aranha no MCU, Jon Watts, falou publicamente que não via como fazer parecer legalo herói balançar pela cidade com suas teias. Pelo amor de Deus, Jon Watts! É como dizer que não seria possível retratar o Capitão América portando um escudo com as cores da bandeira americanaE essa é apenas uma das visões problemáticas do diretor anterior para o herói. Agora, com a estreia de Homem-Aranha: Um Novo Dia, que chega aos cinemas nesta quarta-feira (29), o herói volta às telonas sob nova e melhorada direção de Destin Daniel Cretton, que já havia comandado o subestimado Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis (2021) para a Marvel, provando não apenas que é possível fazer o herói se balançar com as teias pela cidade, mas também que o estúdio perdeu 10 anos de Homem-Aranha sob a tutela de Jon Watts.

Homem-Aranha enfrenta diversos inimigos, mas é a essência de Peter Parker e seus dilemas que se destacam. Foto: Divulgação/ Sony Pictures

A trama do filme traz Peter Parker morando em Nova York, após perder a tia e se ver obrigado a apelar para um feitiço do Doutor Estranho para que todos esquecessem de sua existência. Isso significou abrir mão de suas amizades e do grande amor de sua vida, MJ (Zendaya). É aí que mora o grande acerto desse filme. Mesmo colocando o herói para enfrentar uma porção de ameaças, Um Novo Dia é uma aventura que fala essencialmente sobre solidão e a incômoda sensação de estar sozinho no mundo. Criado na década de 1960 por Stan Lee e Steve Ditko, o Homem-Aranha virou o ícone-mor da Marvel porque conseguiu dialogar em nível pessoal com seus leitores. Era legal ver o herói descendo a porrada nos outros, mas era ainda mais incrível ver Peter Parker enfrentando problemas cotidianos que afligiam a geração. Foi essa ‘pessoalidade’ do herói que o manteve relevante por décadas. E quer um tema mais urgente a essa geração de jovens adultos do que a solidão? Numa era em que a depressão virou pandemia, o isolamento se espalha pelos lares com uma introspecção perigosa. E por mais difícil que seja, Homem-Aranha: Um Novo Dia passa essa mensagem de forma clara: você não está sozinho. Talvez pela primeira vez nesse universo o público vai realmente sentir e se identificar com as dores e incertezas do protagonista, que vive um conflito de personalidade muito grande. Quem ele é sem aqueles que ama ao seu lado?

Mais do que isso, o filme resgata um personagem que sempre foi fundamental nos quadrinhos e que ganhou vida própria na trilogia de Sam Raimi e Tobey Maguire: Nova York. Por mais que não seja tão viva quanto a de Raimi, a cidade está presente e proporciona o casamento perfeito entre protagonista e ambientação. Esqueça aquela sensação de estar em uma rua genérica feita em estúdio ou com fundo verde. Aqui a Cidade Que Nunca Dorme” interage e dialoga com o herói como um verdadeiro personagem da trama. Não só pelas visitas a pontos turísticos, mas porque existe uma essência da cidade que é captada por Cretton, que literalmente mostra NY respondendo ao seu maior herói em seus momentos de insegurança. Esse era outro problema da trilogia anterior que o novo filme conseguiu corrigir. Ter uma Nova York presente numa história do Homem-Aranha é tão importante quanto construir uma Gotham City marcante ou uma Metropolis otimista em histórias do Batman e do Superman, por exemplo.

A produção gravou cenas do Homem-Aranha se balançando pelas ruas de Nova York com efeitos práticos. Foto: Reprodução/ Redes Sociais.

Por falar em correção de problemas, Destin Cretton veio inspirado em dar seu próprio olhar ao MCU, corrigindo uma série de escolhas questionáveis de outros projetos do estúdio, como subaproveitar o Hulk – que de incrível não tinha nada há muito tempo – ou de deixar o Justiceiro restrito às séries por ser um personagem mais violento e boca suja. Jon Bernthal é a encarnação definitiva de Frank Castle e dá um show novamente no papel do vigilante. Seu embate moral com o Homem-Aranha funciona ainda melhor do que com o Demolidor (Charlie Cox), porque o Peter é malandro e sabe que teria como apagar o cara com uma porrada só, então ele tira onda o tempo inteiro. Todas as interações da dupla são divertidíssimas e exalam química. Da mesma forma, a participação do Dr. Bruce Banner (Mark Ruffalo) traz o equilíbrio perfeito entre “Médico e Monstro, dando tempo de tela a ele como gênio da ciência e professor universitário, mas também como um descontrolado Hulk, que volta a ser incrível pela primeira vez desde Os Vingadores (2012). Cretton não tem vergonha de assumir a veia de quadrinhos dos superpoderes. Ele sabe que são heróis capazes de fazer o impossível virar realidade diante de seus olhos, e aproveita cada segundo disso. Talvez este seja o filme mais quadrinhosda Marvel desde a franquia Guardiões da Galáxia. Ele se leva a sério quando tem que ser sério, mas nunca se priva do direito de ser bobo. O resultado disso? Diversão com conteúdo. Um Novo Dia é um filme para todas as idades, porque traz problemas com os quais todos são capazes de se identificar, mas também por se comprometer a efetivamente entreter a audiência.

Vale dizer que o filme, independentemente de qual seja o papel da competente Sadie Sink, é uma porta de entrada para os X-Men no MCU, já introduzindo um dos artefatos mais odiosos do cânone dos mutantes nascendo da insegurança de Peter, com um leve toque de Bruce Banner, em um grande dilema moral do herói. Se o mote do Homem-Aranha é que seus grandes poderes trazem grandes responsabilidades, o peso de suas ações voltarão para assombrá-lo assim que o mutantes virarem centro desse novo universo que vem sendo preparado para o futuro da Marvel nos cinemas.

A parceria entre Homem-Aranha e Justiceiro recria momentos diretamente dos quadrinhos e exala química. Foto: Divulgação/ Sony Pictures.

No fim, o novo Homem-Aranha faz justiça ao seu subtítulo de “Um Novo Diaao vislumbrar novos horizontes não só para o Cabeça de Teia, mas para o Universo Cinematográfico Marvel como um todo. Ele também nos faz praticamente implorar para o estúdio nunca mais voltar a mexer com Multiverso depois desses próximos dois filmes dos Vingadores. Como foi bom poder voltar a ver uma história centrada apenas em Nova York e no herói  enfrentando seus inimigos em meio a dilemas morais. Foi como um sopro de ar fresco ver uma aventura mais preocupada em trabalhar seu protagonista do que em introduzir uma ameaça multicósmica que será assassinada por outro super-herói em outro filme.

Existe também um resgate da ficção científica, mesmo que de forma branda, nesse filme que é mesclada com a aventura constante e as criativas cenas de ação. Isso dá ao longa aquela sensação divertida e genuína de assistir uma das animações dos anos 90 e 2000 em um sábado de manhã, quando a única preocupação da molecada era descobrir como Peter Parker faria para escapar das enrascadas e salvar o dia. Criar isso em 2026, em tempos tão cínicos, e convencer diferentes faixas etárias não é missão fácil. Superman fez isso com maestria em 2025, e agora foi a vez do Amigão da Vizinhança passar sua mensagem e salvar, de muitas formas, essa geração.

O filme consegue criar a sensação de diversão e encantamento de assistir a um bom desenho animado na infância. Foto: Divulgação/ Sony Pictures.

Homem-Aranha: Um Novo Dia chega aos cinemas em 29 de julho de 2026.

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Pedro Sobreiro
Pedro Sobreirohttps://cinepop.com.br/
Jornalista apaixonado por entretenimento, com passagens por sites, revistas e emissoras como repórter, crítico e produtor.