Crítica | Homicídio nos EUA: Laci Peterson – Netflix Finalmente Acerta no Formato de Minissérie Documental

Mais ou menos nos últimos cinco anos a Netflix tem se debruçado com mais interesse na produção de séries e minisséries documentais, a maioria das quais, claro, tem como tema o true crime, os crimes reais que aconteceram em algum lugar do mundo e que ganharam grande repercussão midiática. De todas as produções disponibilizadas até agora na plataforma, boa parte é de eventos ocorridos nos Estados Unidos, e a maioria seguia uma fórmula narrativa que se repetiu em muitas séries produzidas pelo streaming, o que invariavelmente cansou o espectador (pois, independentemente do assunto, já dava para adivinhar o que vinha em seguida na série, pois a fórmula era a mesma). Indo na contramão desse formato, estreou recentemente na plataforma a minissérie documental ‘Homicídio nos EUA: Laci Peterson’, e, desde então, se mantém no Top 10 dos mais assistidos.

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Era véspera de Natal em 2002. Laci Peterson, grávida de oito meses, saiu para passear o cachorro enquanto o marido, Scott, foi pescar com seu barco na marina. Horas depois ele retornou a casa e não encontrou a esposa. Começava aí o pior pesadelo de todos para Scott: ele liga para seus sogros para informar o desaparecimento de Laci, que não voltara para casa. Em seguida, informa a polícia, que pega o depoimento de Scott. Como era véspera de Natal e na pequena cidade de Modesto, na Califórnia, não acontecia muita coisa, o desaparecimento de Laci se tornou uma notícia interessante para os veículos da imprensa, que rapidamente se debruçaram sobre o caso para ter o que reportar à audiência. E assim, da noite para o dia, o desaparecimento de Laci Peterson ganhou comoção nacional e, na mesma medida, Scott se tornou o principal suspeito.

Dividida em três episódios com pouco menos de uma hora cada, a minissérie ‘Homicídio nos EUA: Laci Peterson’ tem o formato e a duração certas. Ao final, o espectador não sente que ficou assistindo a idas e vindas sem necessidade na narrativa, ao contrário, todos os elementos foram bem planejados na montagem.

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Dirigido por Skye Borgman, surpreende a dedicação que a equipe de pesquisa teve não só para trazer os elementos-chave da investigação, mas, principalmente, os entrevistados. Para uma produção investigativa baseada num caso real, é impressionante que a diretora tenha conseguido coletar os depoimentos de pessoas tão diretamente envolvidas no caso, como a mãe de Laci, as três melhores amigas da vítima, a irmã de Scott, jornalistas que fizeram a cobertura na época, o policial responsável pela investigação, o advogado da acusação, uma testemunha-chave que causou toda a reviravolta na trama e até mesmo dois dos júri do caso!

A construção narrativa parte do marco zero, que é a versão dada por Scott para a polícia (o desaparecimento na véspera de Natal) e, a partir daí, vai inserindo os elementos tal qual foram emergindo na época, mas sempre balanceando com o fato de milhares de pessoas se comoverem com o caso e se disponibilizarem em equipes e comitês de busca por Laci. É impressionante essa cultura do coletivismo em situações como essas nos EUA. Por outro lado, é assustador pensar, a partir do depoimento de Scott, como as pequenas coisas que fazemos no nosso dia a dia (tipo, parar numa loja para comprar um lanche e pedir ou não o recibo da compra) pode ser usado a favor ou contra você em uma situação como essa, a depender da forma como esse dado é comunicado à polícia.

Bem construído e bem roteirizado, ‘Homicídio nos EUA: Laci Peterson’ é uma minissérie envolvente, facilmente maratonável e que nos engancha desde o início. Pra ver numa tarde.

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Janda Montenegro
Janda Montenegrohttps://cinepop.com.br
Janda Montenegro é doutora-pesquisadora em Literatura Brasileira no Programa de Pós-Graduação em Letras da UFRJ com ênfase nas literaturas preta e indígenas de autoria brasileira contemporâneas. De origem peruana amazônica, Janda é uma palavra em tupi que significa “voar”. Desde 2018 trabalha como crítica de cinema nos portais CinePOP e Cabine Secreta. É curadora, repórter cultural, assistente de direção e roteirista. Co-proprietária da produtora Cabine Secreta e autora dos romances Antes do 174 (2010), O Incrível Mundo do Senhor da Chuva (2011); Por enquanto, adeus (2013); A Love Tale (2014); Três Dias Para Sempre (2015); Um Coração para o Homem de Lata (2016); Aconteceu Naquele Natal (2018,). O Último Adeus (2023). Cinéfila desde pequena, escreve seus textos sem usar chat GPT e já entrevistou centenas de artistas, dentre os quais Xuxa, Viola Davis, Willem Dafoe, Luca Guadanigno e Dakota Johnson.