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Crítica | Homo Argentum – Guillermo Francella Abrilhanta Compilado de Crônicas do Homem Contemporâneo


Existem três nomes argentinos que, se colocados lado a lado numa produção, é certeza de qualidade: Guillermo Francella, Mariano Cohn e Gastón Duprat. A dupla de roteiristas e diretores, indicados ao Oscar por ‘O Cidadão Ilustre’, tem como assinatura criar histórias que observam o cotidiano e o contemporâneo, acentuados por uma forte crítica social, principalmente sobre o próprio país, Argentina. E desde que Francella começou a estrelar seus filmes, o trio conquistou não só o público argentino, mas o latino-americano, principalmente o brasileiro. Por essas e outras que ‘Homo Argentum’, novo projeto dos três, teve pré-estreia no Festival do Rio 2025, com a presença de Mariano Cohn apresentando-o ao público presente.

Em um compilado que totaliza uma hora e cinquenta, ‘Homo Argentum’ traz dezesseis histórias que duram entre um e vinte minutos mais ou menos. Todas são estreladas por Guillermo Francella, que se caracteriza de forma diferente para cada uma delas. Algumas histórias possuem mais personagens e diálogos, outras, são tão rápida como um mero episódio da vida cotidiana. O projeto, é verdade, poderia ser uma série de mini histórias, como o ‘What If’ da Marvel, mas o fato de terem optado pelo formato de longa-metragem não só emprega um quê de ousadia no projeto como também aposta na sua projeção: ver a essas dezesseis histórias no cinema faz tem muito mais impacto pela experiência coletiva de reagir às tramas juntos, ao invés de sozinho em casa.



Das histórias, vale separar a primeira (não à toa, o carro chefe da produção), em que Francella vive um homem de classe média alta debatendo a migração compulsória dos jovens para a Europa, e, em seguida, vai à varanda fumar um cigarro e um acidente acontece. A maestria com que o semblante do personagem muda no acidente e momentos após é fabulosa, e comprova porque é um dos maiores atores da atualidade.

Em outro momento, Francella é um pai cuja esposa morreu há um tempo e cujos filhos se reúnem para falar da herança, após o pai anunciar estar namorando a governanta da casa. Outra história sensacional aborda um homem rico que é abordado por um rapaz que vende doces; compadecido com a situação do rapaz, o homem oferece um almoço, depois um banho de loja, um aparelho de celular… tudo realizado com o maior desprendimento.

Situações como essas são recorrentes em ‘Homo Argentum’, que uma vez mais evidencia o olhar extremamente crítico dos roteiristas e diretores em ver o homem contemporâneo em todas as suas camadas, tirando-lhe as máscaras e revelando-o tal como é. Aqui, tendo o dinheiro e a posse como fio condutor, os diretores convidam o espectador a refletir sobre as situações e personagens apresentados, sempre através do viés do humor, do cinismo e da conveniência, afinal, tanto as situações quanto os personagens parecem com algo pelo qual passamos ou alguém que conhecemos. Como diz a ironia do título, é um exercício de observação da evolução humana – se é que se pode usar essa palavra para caracterizar o homem de hoje.

Altamente irônico e sem medo de colocar uma lente na sujeira debaixo do tapete da classe média, ‘Homo Argentum’ é um exercício ótimo sobre até onde vai a hipocrisia social em prol do benefício próprio.

O filme chega dia 20 de novembro na DisneyPlus.

Janda Montenegrohttps://cinepop.com.br
Janda Montenegro é doutora-pesquisadora em Literatura Brasileira no Programa de Pós-Graduação em Letras da UFRJ com ênfase nas literaturas preta e indígenas de autoria brasileira contemporâneas. De origem peruana amazônica, Janda é uma palavra em tupi que significa “voar”. Desde 2018 trabalha como crítica de cinema nos portais CinePOP e Cabine Secreta. É curadora, repórter cultural, assistente de direção e roteirista. Co-proprietária da produtora Cabine Secreta e autora dos romances Antes do 174 (2010), O Incrível Mundo do Senhor da Chuva (2011); Por enquanto, adeus (2013); A Love Tale (2014); Três Dias Para Sempre (2015); Um Coração para o Homem de Lata (2016); Aconteceu Naquele Natal (2018,). O Último Adeus (2023). Cinéfila desde pequena, escreve seus textos sem usar chat GPT e já entrevistou centenas de artistas, dentre os quais Xuxa, Viola Davis, Willem Dafoe, Luca Guadanigno e Dakota Johnson.
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