Crítica | Honk for Jesus. Save your Soul: Filme com Sterling K. Brown e Regina Hall funciona como sátira, mas se perde como comédia

Filme assistido durante o Festival de Sundance 2022

A cultura das megachurches conquistou o seu apogeu nos Estados Unidos entre os anos 90 e 2000, através de comunidades evangélicas focadas em um habilidoso programa de expansão em massa. E embora as raízes desse ministério de propagação evangelística estejam originalmente firmadas em princípio bíblicos, o que vimos tanto na América, como no Brasil, foi a distorção de algo bom, resultando em uma avalanche de egolatria, onde líderes religiosos transformam o chamado de Cristo em uma bagunça egomaníaca. Honk for Jesus. Save your Soul, dirigido e roteirizado por Adamma Ebo, nasce exatamente a partir desse problema crônico e faz uma sátira certeira a um abuso de poder instaurado em muitas igrejas que de cristãs, não possuem absolutamente nada.

E Honk for Jesus. Save your Soul funciona, mas de forma imperfeita…pela metade. Se apresentando como uma crítica ácida aos líderes religiosos que abusam de seu poder a partir de distorções bíblicas, a produção acompanha Sterling K. Brown e Regina Hall como um casal de pastores que conduz uma mega igreja batista. Mas após um enorme escândalo envolvendo seus nomes, sua comunidade é forçada a fechar as portas temporariamente, colocando em risco o império que ambos construíram a partir do abuso religioso.

Se desenvolvendo no formato mocumentário (paródia de um documentário), o longa é baseado em um curta-metragem e têm dificuldades de desenvolver o seu humor. Com uma trama de uma piada só, Honk for Jesus. Save your Soul não justifica seu tempo de duração e acaba se tornando exaustivo após sua primeira hora. E ainda que o modelo de sátira documental traga um valor maior para o longa, a narrativa se perde ao andar muito em círculos, sempre reforçando os mesmo estereótipos que já haviam sido introduzidos em seus primeiros minutos. Com o lado cômico da crítica social nem sempre funcionando, a produção acaba sendo enfadonha – ainda que suas intenções sejam boas.

O grande destaque da comédia fica obviamente com Hall e Brown, que entregam performances ultra caricatas de personagens reais e vergonhosos para as comunidades cristãs sérias. Como duas figuras aquém ao mundo que as rodeia, a “primeira-dama” Trinitie Childs e o pastor Lee-Curtis Childs são retratos reais de um narcisismo que invadiu uma parcela significativa do meio religioso. E ainda que soem um tanto forçados em certos momentos, é inegável que a crítica de Adamma Ebo é um espelho de um problema real.

Mas com um argumento narrativo que promete confrontos poderosos que jamais são devidamente entregues, a sátira quase documental peca por se apoiar demais na caracterização dos protagonistas, na expectativa de que isso seja suficiente para sustentar a trama. Criando expectativas de que o filme vá além do estilo de vida ostensivo, narcisista e pitoresco do casal religioso, Honk for Jesus. Save your Soul nunca chega lá. Ebo pode até acertar ao tornar a experiência cinematográfica em um enorme desconforto, mas isso é insuficiente para fazer com que o filme seja aquele soco no estômago que uma boa crítica social precisa ser. É uma pena.

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Rafaela Gomes

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