domingo, junho 16, 2024

Crítica | ‘Imaginário: Brinquedo Diabólico’ é movido a clichês, mas tem seu valor de entretenimento

É notável como a Blumhouse vem perdendo a mão em diversas produções recentes: apenas de memória, podemos citar o fracasso crítico e comercial de ‘Mergulho Noturno’, a frustrante adaptação de ‘Five Nights at Freddy’s’ e a esquecível investida ‘O Exorcista: O Devoto’ – cada qual mostrando uma fadiga não especificamente do gênero do terror, mas das mentes criativas por trás da companhia e de seus projetos. Agora, a produtora nos apresenta a mais uma tentativa de resgatar o brilho de originalidade que tinham há alguns anos com o lançamento de ‘Imaginário: Brinquedo Diabólico’, que chega aos cinemas nacionais amanhã, 14 de março.

O longa-metragem acompanha Jessica (DeWanda Wise), uma mulher recheada de traumas de um passado não muito distante que retorna para a casa de infância ao lado do marido, Max (Tom Payne), e das enteadas – Alice (Pyper Braun) e Taylor (Taegen Burns), esta não tendo uma relação muito próxima ou afetiva com a madrasta. Após se mudarem para o subúrbio a fim de começarem um capítulo novo de suas vidas, Alice cria um amigo imaginário após encontrar um ursinho de pelúcia, dando-lhe o nome de Chauncey e levando Jess a acreditar que aquilo é apenas uma forma da jovem menina lidar com tantas mudanças e com certos fantasmas que continuam voltando a atormentá-la. Entretanto, as coisas mudam drasticamente de forma quando Jess percebe que, de alguma maneira, Chauncey está induzindo Alice a fazer coisas terríveis e que podem colocar todos ali em perigo mortal.

Seguindo os passos de títulos anteriores da Blumhouse, ‘Imaginário: Brinquedo Diabólico’ é desprovido de qualquer originalidade – mas, nesse caso, essa falta de comprometimento com o novo não é algo ruim. É notável como a construção da obra preza mais pela atmosfera do que pelo conteúdo, aliando-se a performances boas o suficiente para nos engajar ao longo de uma hora e quarenta minutos e a certos jump-scares que, por mais óbvios que sejam, nos fazem pular da cadeira. E percebemos que o longa-metragem, em momento algum, tenta dar um passo maior do que consegue e não se rende aos pecaminosos equívocos da presunção fílmica, tendo plena consciência de seu teor escapista e de que, no final das contas, é um título “pipoca” cujo objetivo é nos engolfar em um cosmos nem um pouco próximo da realidade.

Como já mencionado, a produção é recheada dos mais variados clichês – e tem plena noção disso: temos a famosa casa assombrada com um porão assustador que é palco para o encontro entre o sobrenatural e o mundano; os personagens arquetípicos que são jogados em um mandatório arco de amadurecimento, enfrentando traumas que são materializados em criaturas medonhas; os supracitados jumpscares, talhados em movimentações de câmera que premeditam os sustos; a trilha sonora deliberadamente dissonante e com explosões instrumentais que fecham o ciclo de determinada cena; e muitos outros. Todavia, como esses elementos não se levam a sério, é muito fácil ser envolvido pelo projeto cinematográfico que se desenrola à nossa frente e sair da sala satisfeito, desde que não tenhamos as expectativas muito altas.

Jeff Wadlow, colaborador de longa-data da Blumhouse e responsável por títulos como ‘Verdade ou Consequência’ e ‘Ilha da Fantasia’, senta-se à cadeira de direção e tenta fazer o máximo que pode para fornecer estilizações ao filme. Eventualmente, ele percebe que o caminho mais seguro é focar na simetria angustiante de uma fotografia sóbria, no jogo de campo e contracampo que coloca em conflito as personalidades das protagonistas, e na elementaridade dos planos holandeses que ajudam a cultivar a tensão e a conclusão de cada ato. E, de fato, são as performances de Wise e Braun que nos ajudam nessa desequilibrada jornada, ainda mais pela honestidade que pregam em cena.

Um dos deslizes principais é o roteiro. Assinado por Wadlow, Greg Erb e Jason Oremland, a história poderia ter sido mais bem aproveitada caso não quisesse se valer de uma mitologia muito complexa e que envolve muitas subtramas. Afinal, temos explicações constantes de como o amigo imaginário de Alice corresponde a uma entidade cuja manifestação pode caminhar de duas maneiras – uma protetora e outra vingativa, como é o caso de Chauncey. E isso também se relaciona com o laço que une Alice e Jess e os segredos que se escondem no casarão, abrindo espaço para certas pulsões da psicologia que não deveriam existir, restringindo-se, sim, ao sobrenatural e às clássicas histórias de terror pelas quais somos apaixonados.

‘Imaginário: Brinquedo Diabólico’ é um festival de convencionalismos criativos que, por incrível que pareça, tem o seu valor como entretenimento. É muito fácil se divertir com o longa-metragem caso varramos para debaixo do tapete as falhas estruturais e caso não esperemos nada mais do que nos é prometido. No fundo, a produção entrega aquilo que propõe e é uma pedida interessante para se ver em um final de semana menos movimentado, com um conceito muito bem-vindo que, de fato, não explora todo seu potencial.

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Thiago Nollahttps://www.editoraviseu.com.br/a-pedra-negra-prod.html
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.

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