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Crítica | In-I in Motion – Juliette Binoche Estreia na Direção de Importante Registro Artístico [Festival do Rio 2025]


Juliette Binoche é dessas atrizes internacionais que o público brasileiro conhece, e todo mundo tem um filme favorito com ela. A estrela de ‘A Liberdade é Azul’ já veio algumas vezes ao Brasil, e voltou novamente às terras cariocas na última semana, onde estreou  o documentárioIn-I in Motion’, seu primeiro longa como diretora que teve exibições especiais durante o Festival do Rio 2025, com sua presença.

O ano era 2007. A atriz francesa Juliette Binoche e o dançarino Akram Khan decidem se unir para criar um espetáculo único, que misturaria interpretação teatral e dança contemporânea. Nascia assim a peça In-I. Enquanto criam e ensaiam, Juliette teve a ideia de registrar todo o processo de desenvolvimento do projeto, desde os ensaios, as discussões, as tentativas, os erros, os acertos. Desse registro, tem-se dois filmes: um com o processo criativo, e outro, do espetáculo em si.



O ponto mais relevante para o espectador comum é saber que o documentário, de duas horas e trinta e seis minutos, é, na verdade, dois: um dos ensaios, outro da apresentação. E a divisão entre ambos é bastante nítida no filme, pois exatamente quando acaba o último dia de ensaio, imediatamente começa o primeiro minuto da peça. Assim, o projeto poderia ser, na verdade, um documentário sobre o processo e a apresentação ser, no final das contas, aqueles extras do dvd, afinal, duas horas e quarenta é muito tempo de projeção, principalmente se considerarmos que o espaço dos treinos é bem maior do que a apresentação, o que demonstra a predileção da diretora pelo antes, não pelo depois.

Desse modo, é preciso avaliar em duas partes o filme.

A primeira metade é realmente um material muito rico (embora cansativo), principalmente para os atores e artistas que se interessam pelo processo criativo de outros colegas. De início, a trama pode não engajar o espectador comum pois os termos, o foco, o interesse é muito específico: aqui vemos dois artistas, cada um tentando desenvolver habilidades e entregar a melhor performance possível na área do outro – ela, na dança, ele, na atuação. Desse desafio que ambos se propõem é que vem a beleza do trabalho criado por ambos. Binoche, à época com quase cinquenta anos, demonstra que não há limites para o corpo que se prepara. Ela dá um banho de dedicação, seja em seu esforço em se comunicar e em entender o tempo todo em inglês, seja na sua constante insistência em levar seu corpo ao limite para fazê-lo resistir ao próprio peso, ao peso de seu parceiro, aos movimentos. Em uma cena em específico, vemos seu sofrimento em se colocar numa situação desconfortável em prol da narrativa do espetáculo, e seu medo de que a coisa não funcione.

E é esse jogo que é o mais interessante. Juliette dirige Akram para que ele empregue as emoções certas nas suas falas; Akram coordena os movimentos de dança para que seu corpo e o de Juliette entrem em sintonia ao ponto de se tornarem um só em movimento em cena. Como cenas de ‘Dança dos Famosos’. A forma como tudo isso se constrói é precioso demais, um material de estudo valioso para atores, dançarinos e artistas aprenderem a generosidade em cena e como se desenvolverem mais a partir da perspectiva do outro.

Com um material de ensaio tão rico, a apresentação, em si, acaba se tornando uma gordura a mais num filme de mais de duas horas. É como um adendo para os curiosos. ‘In-I in Motion’ é um ótimo material de estudo, porém extenso demais para as telas grandes.

Janda Montenegrohttps://cinepop.com.br
Janda Montenegro é doutora-pesquisadora em Literatura Brasileira no Programa de Pós-Graduação em Letras da UFRJ com ênfase nas literaturas preta e indígenas de autoria brasileira contemporâneas. De origem peruana amazônica, Janda é uma palavra em tupi que significa “voar”. Desde 2018 trabalha como crítica de cinema nos portais CinePOP e Cabine Secreta. É curadora, repórter cultural, assistente de direção e roteirista. Co-proprietária da produtora Cabine Secreta e autora dos romances Antes do 174 (2010), O Incrível Mundo do Senhor da Chuva (2011); Por enquanto, adeus (2013); A Love Tale (2014); Três Dias Para Sempre (2015); Um Coração para o Homem de Lata (2016); Aconteceu Naquele Natal (2018,). O Último Adeus (2023). Cinéfila desde pequena, escreve seus textos sem usar chat GPT e já entrevistou centenas de artistas, dentre os quais Xuxa, Viola Davis, Willem Dafoe, Luca Guadanigno e Dakota Johnson.
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