Crítica | Jessie Buckley e Christian Bale navegam pela insanidade na espetacular excentricidade de ‘A Noiva!’

Com apenas vinte anos de idade, Mary Shelley tornou-se uma das maiores romancistas da história ao publicar ‘Frankenstein ou, o Prometeu Moderno’, que deu início à literatura da ficção científica com uma obra seminal e que constantemente é revisitada por realizadores dos mais diversos âmbitos artísticos – seja na música, no teatro ou no cinema. Com sua magnum opus, Shelley eternizou uma potente narrativa gótica explorando o galvanismo e o cientificismo como reflexo da desmedida ambição humana em controlar as forças da natureza – colocando-os frente a frente com os corolários de uma egolatria autodestrutiva.

Não é surpresa que essa obra-prima tenha ganhado incontáveis releituras, como o recente épico gótico ‘Frankenstein’, de Guillermo Del Toro, que conquistou várias indicações ao Oscar; ou a integração do conto na aclamada série ‘Penny Dreadful’, em que o icônico monstro foi imortalizado por uma performance irretocável de Rory Kinnear. Agora, somos convidados a uma inesperada adaptação que não bebe apenas do livro de Shelley, mas do clássico ‘A Noiva de Frankenstein’, de 1935. Escrito e dirigido por Maggie Gyllenhaal, o projeto é um encontro entre surrealismo, drama psicológico e terror que, em meio às explosões frenéticas da psique humana e uma análise da sociedade como motor disruptivo, com certeza irá dividir o público.

Com estreia marcada para o próximo dia 5 de março nos cinemas nacionais, a trama se inicia com a introdução de Ida (Jessie Buckley), uma mulher que, em meio a um caótico jantar, é possuída pelo espírito de Shelley e é assassinada. O que ela não imaginava é que seria trazida de volta à vida por Frankenstein (Christian Bale), que, após um século de solidão, anseia por companhia e pede a ajuda da Dra. Euphronious (Annette Bening), especializada em reanimação de organismos. Contrariando as intuições iniciais e intrigada pela presença do excêntrico visitante, ela e Frankenstein desenterram o corpo de Ida – que sai de seu sono eterno em um ímpeto de entender quem é e qual o seu motivo de existência.

Gyllenhaal, escolhendo a dedo um novo projeto após o aclamado drama psicológico ‘A Filha Perdida’, não pensa duas vezes antes de navegar por incursões oníricas e não-lineares para construir a essência dos protagonistas, em especial ao destinar boa parte dos holofotes ao coming-of-age em que Ida/Mary Shelley se vê. Responsável também pelo roteiro, a cineasta tem uma visão bem clara ao arquitetar uma amálgama de estilos artísticos e filosóficos que presta homenagens aos primórdios da sétima arte e a produções contemporâneas, construindo uma ponte diegética refletida no próprio enredo. Vanguardas como o expressionismo dão as caras em um jogo muito bem calculado de luz e sombra, enquanto Yorgos Lanthimos e Charlie Kaufman são canalizados para uma exploração quase niilista do que significa estar vivo – e da subjetividade de uma ação tão contundente.

À medida que digladia com a multiplicidade de vozes que toma controle de seu corpo inerte, Ida percebe que seu contato com o mundo espiritual a permitiu se transformar em um canalizador de um passado não muito distante em que ela, ao lado de outras garotas, estavam infiltradas em uma perigosa conspiração envolvendo um chefão da máfia. Sendo caçadas uma a uma, Ida, impulsionada pelo emblemático impacto que Shelley teve à sua época, promove uma radical mudança social que coloca os oprimidos em um levante violento e justificável que procura colocar um ponto final em um corroído status quo.

Tanto Ida quanto Frankenstein existem fora das convenções e, ao mesmo tempo, dentro delas. Conforme percebem que as construções sociais são frágeis o suficiente para serem esmagadas, ambos são arremessados a um arco de completa falta de consciência que esquadrinha temas como disrupção e deslocamento. A inconsequência transforma-se em um combustível anárquico que escala a níveis estratosféricos cena após cena, alcançando um patamar de absurdez que puxa conceitos do surrealismo sem se deixar levar pelo pedantismo. Não é surpresa que, por exemplo, paleta de cores seja uma materialização dessa ideia ao colocar Ida em uma constante perseguição por tons laranjas, indicando um perigo e uma euforia inescapáveis.

Nada disso seria possível sem o trabalho de um elenco inigualável. Buckley, recém-saída de uma performance aplaudida em ‘Hamnet’, que já parece ter lhe garantido a estatueta do Oscar, diverte-se em uma expansiva e intrincada rendição como Ida/Mary, navegando pela mudança brusca de sotaques e por uma exploração corporal do que significa contrariar as normas – em alguns momentos, nos relembrando de Eva Green em ‘Penny Dreadful’. Bale, por sua vez, reitera seu apelido como “camaleão do cinema” e apresenta uma perspectiva diferente para Frankenstein, dotando-o de uma espécie de egoísmo inconsciente que o aproxima dos mesmos seres que o condenam – e afastando-se das atuações de Kinnear e Jacob Elordi.

Permeando essa furiosa aventura, temos a contribuição igualmente imprescindível de Bening, Penélope Cruz como a Detetive Myrna Mallow, Peter Sarsgaard como o Detetive Jake Wiles e Jake Gyllenhaal como o popular astro de cinema Ronnie Reed – este auxiliando a construir um paralelo microcósmico do rompante cotidiano dos protagonistas e do efêmero refúgio que encontram na ficção. E, através da complexidade inegável dessas personas tão distintas, Gyllenhaal tropeça aqui e ali e parece se preparar para uma recepção polarizada de seu mais novo e incrível longa-metragem.

‘A Noiva!’ é um ambicioso projeto de Gyllenhaal em sua busca por inovações técnicas e narrativas, reiterando peculiaridades que, pouco a pouco, refletem um estilo em potencial muito interessante. Ao se aliar ao talento de Buckley, Bale e uma equipe de talentosos nomes, a realizadora homenageia uma das maiores romancistas de todos os tempos com uma reimaginação incisiva, indesculpável e deliciosamente cínica.

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Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.

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Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.