quarta-feira, fevereiro 21, 2024

Crítica | João Sem Deus: A Queda de Abadiânia – Minissérie com Marco Nanini Retrata A Força das Mulheres contra Líder Espiritual [Festival do Rio 2023]

Ter fé é um direito do ser humano que não pode nem deve ser questionada por nenhum outro indivíduo, independentemente de se partilhar da mesma crença ou não. A fé contribui para que os dias ruins sejam mais amenos, para  que a esperança permaneça no coração das pessoas e que a cura venha, apesar do desengano. Infelizmente, porém, como em outros campos, também na fé há pessoas que querem se aproveitar dos fragilizados e se beneficiar diante da vulnerabilidade do outro. Não são poucos os casos de abuso relacionados à ministradores de uma fé envolvendo crentes que os seguiam. Um desses episódios reais que chocou o Brasil na última década foi o abuso sexual promovido pelo médium João de Deus, que agora é retratado em formato de minissérie ficcional sob o título ‘João Sem Deus: A Queda de Abadiânia’, que teve sessão de gala durante o Festival do Rio 2023 e que estreou no último final de semana na grade do Canal Brasil.

Carmem (Bianca Comparato) trabalha como assistente na casa de cura onde João de Deus (Marco Nanini) opera seus procedimentos para sarar os males do corpo e da alma das pessoas. Ela se mudara para lá desde quando, anos antes, fora até o local em busca de cura para a sua irmã, Cecília (Karine Teles), que misteriosamente ficara cega. Diante do milagre alcançado, Carmem decide fazer dessa sua missão de vida, gerenciando, junto com sua filha, o hotel que os hospeda os visitantes. Quando, certo dia, eles recebem uma ligação de uma repórter do Fantástico interessada em entrevistar João de Deus para um contraponto para uma matéria que está montando, Carmem e os outros funcionários optam por ignorar o pedido. Porém, a matéria vem ao ar, com o depoimento de diversas mulheres acusando o médium de abuso sexual. Com o passar das horas, o número de denúncias ultrapassa o de 100 depoimentos, e a fé que Carmem possuía no médium é colocada em xeque diante do horror dos fatos.

Dividido em apenas três episódios com pouco menos de uma hora de duração cada, a minissérie acerta ao focar sua atenção não no acusado, mais sim no impacto que a verdade causa na vida das pessoas que viviam em função daquele indivíduo, centrando seu tema na força das mulheres em denunciar o abusador, de modo a, assim, ganharem credibilidade e força diante da mídia, do público e do eventual julgamento.

A direção de Marina Person é firme e respeitosa, centrando sua câmera nas reações emocionais das protagonistas mulheres à medida que a verdade vai sendo revelada, causando angústia no espectador, principalmente na espectadora. Em oposição, a diretora constrói o personagem de Marco Nanini como uma entidade inalcançável, quase que com uma aura ao seu redor perante os olhos dos personagens; à medida que a verdade vem à tona, este personagem ganha um semblante mais sombrio, quase sempre às escuras, de costas, com a câmera captando apenas suas falas e partes de seu corpo. Para retratar os episódios de violência, a diretora acertadamente não os filma graficamente, focando a câmera no espanto assombroso das vítimas.

Angustiante e bem-feita, a minissérie ‘João Sem Deus: A Queda de Abadiânia’ dá voz ao sofrimento de centenas de mulheres que procuraram a cura com este homem e, ao invés, encontraram a violência. Apesar do título, é uma série sobre elas, sobre a união das mulheres em dar basta à normalização das violências sexuais.

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