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Crítica | Jon Hamm sobrevive à falência do “sonho americano” na satírica série ‘Seus Amigos e Vizinhos’


O que fazer quando tudo o que você conhece se desmantela?

É essa pergunta que Seus Amigos e Vizinhos, um dos títulos mais recentes da Apple TV+, se dispõe a responder. Estrelada por Jon Hamm, a produção mantém-se nivelada à alta qualidade entregue pela plataforma de streaming – cujas narrativas costumam aglomerar um time habilidoso para conquistar os assinantes e a crítica ao redor do mundo. E, enquanto alguns deslizes de ritmo acontecem nos primeiros episódios, é notável como o caráter ácido e jocoso do enredo é pincelado com incursões de suspense e de drama, dando vida a uma explosiva narrativa que ainda tem muito a nos contar.

A trama é centrada em Coop (Hamm), um gestor de fundos de hedge que vê sua vida virar de cabeça para baixo quando tudo pelo que passou a vida inteira trabalhando desmorona de uma hora para outra. Construindo um futuro ao lado de Mel (Amanda Peet) e acreditando que já tinha alcançado seu ápice de conforto em meio a uma realidade que soube explorar ao máximo, Coop flagra a esposa traindo-o com um de seus amigos mais próximos, Nick (Mark Tallman), e se vendo obrigado a desmistificar todas as crenças que o falido “sonho americano” lhe havia vendido. E isso não é tudo: após se envolver com uma das funcionárias que trabalha em sua empresa, seu chefe, Jack (Corbin Bernsen), inventa uma falsa acusação de assédio que foi feita no RH para demiti-lo e se apropriar de todas as contas que ficam sob sua responsabilidade – em um último golpe que coloca Coop em uma espiral vingativa.



A própria ideia da atração já parte de inclinações para a sátira social – e quem melhor que Hamm, que nos engolfou em uma performance incrível na aclamada ‘Mad Men’, para ser o centro dessa jornada de insanidade? Afinal, a profissão de Coop é garantir uma forma de que os investimentos de seus clientes não sofram perdas drásticas com as mudanças na Bolsa de Valores; porém, ele mesmo se torna vítima das circunstâncias ao não analisar os riscos que permeiam seu cotidiano pautado no luxo e na riqueza, sendo abandonado pelos amigos, pela esposa e até mesmo pelos filhos Tori (Isabel Gravitt) e Hunter (Donovan Colan). À medida que entende que a vida que tinha não irá mais voltar, ele se recusa a deixar um mero obstáculo atrapalhar um estilo que lutou dia após dia para conquistar.

Criada por Jonathan Tropper, mesmo nome por trás de séries como ‘Banshee’ e ‘Warrior’, a produção explora as mazelas do capitalismo predatório e da maximização do lucro em detrimento da humanidade de maneira interessante e muito bem-vinda, recusando-se a transformar o protagonista em “mocinho” e abrindo espaço para que ele se torne um anti-herói da própria desgraça que cultivou. Afinal, pessoas ricas desejam ainda mais poder, seja ele como for, e Coop não percebe que os fortes laços que nutria com a ex-esposa e com a família que construíra se desvaneceram ao passo que suas ambições escalaram a níveis extremos. Todavia, ele também se torna alvo de uma artimanha que visa colocá-lo fora do mercado, induzido a assinar termos que o impedem de ser contratado por outras companhias de seguro.

Determinado a não abrir mão do que conquistou, ele vê uma alterativa: aproveitar-se de seus vizinhos e de seus conhecidos mais ricos para roubar pertences de que provavelmente não darão falta, mostrando que ele ainda tem o necessário para dobrar o mundo às suas vontades – mesmo que seja às escondidas. E, como vemos no final do episódio piloto, Coop se envolve em uma trágica morte que pode colocá-lo no centro de uma investigação destinada a enterrá-lo de uma vez por todas. Obviamente, apenas dois capítulos da série foram exibidos – mas com ganchos que são sólidos o suficiente para nos manter interessados nas semanas consecutivas.

Tropper, responsável pelo roteiro, alia-se com a charmosa direção de Craig Gillespie (‘Cruella’) para gerar essa envolvente empreitada. Aqui e ali, equívocos falam mais altos e desestabilizam brevemente um ótimo e frenético ritmo pautado numa verborragia extrema, muito característica de praticamente todos os personagens encarnados por Hamm. Permanecendo como o guia que toma as rédeas da história, o astro puxa páginas emprestadas de Don Draper, remodelando-as de forma a transformar Coop em uma extensão do protagonista de ‘Mad Men’ e, ao mesmo tempo, algo totalmente diferente que reitera sua versatilidade artística. O astro não está sozinho e divide a atenção com atuações formidáveis de um elenco que, além dos supracitados, inclui Olivia Munn em um retorno merecido ao show business, encarnando o caso amoroso e sexual de Coop, Sam; e Lena Hall em uma breve aparição, ao menos por enquanto, da perturbada irmã do personagem principal, Ali.

Apesar de escorregar em momentos pontuais, os dois primeiros episódios de Seus Amigos e Vizinhos são estruturados com comprometimento perceptível que cumpre o propósito de nos introduzir à trama principal e às personas que serão engalfinhadas nesse intrincado cosmos. Nutrindo da soberba interpretação de Hamm, Tropper faz questão de nos deixar instigados para as próximas iterações – e de que forma a temporada de estreia será concluída.

 

Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.
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