O body horror, ou “horror corporal” em tradução direta, é um dos subgêneros mais populares do terror e pode ser traçado inclusive para a Era de Ouro do cinema – ainda que tenha sido firmado como vertente com ninguém menos que o icônico David Cronenberg, responsável por produções de baixo orçamento e recheadas de efeitos práticos como ‘Scanners’, ‘A Mosca’ e ‘Gêmeos: Mórbida Semelhança’. Cronenberg pautou essas incursões através de um arranjo considerável de tropos que influenciariam diversos realizadores, como foi o caso do espetacular trabalho de Coralie Fargeat no recente ‘A Substância’. Agora, somos convidados a retornar para esse tipo de história com o antecipado ‘Juntos’, que chega aos cinemas nacionais no dia 14 de agosto.
A trama é centrada em Millie (Alison Brie) e Tim (Dave Franco), um casal que resolve dar um passo a mais em sua relação – por mais que ela não esteja claramente definida para nenhum dos dois – ao se mudar para uma pequena cidade do interior, visto que Millie conseguiu um emprego como professora na escola local. Ainda que feliz pela conquista de sua amada, Tim se vê abrindo mão de mais uma oportunidade em sua vida repleta de sonhos não realizados ao ceder às prioridades da “namorida”, por mais que ela insiste que ele precisa decidir o que quer e de que forma irá alcançar seus objetivos. Percebendo que, talvez, o relacionamento esteja desgastado, Millie tenta engajar em uma conversa importante que logo é varrida para debaixo do tapete pela perigosa indulgência de Tim.

Assim que chegam a uma nova realidade, os dois percebem que levarão um tempo para se acostumar a um cotidiano muito diferente e menos frenético do que estão acostumados e, pouco a pouco, vão se instalando. Em um determinado dia, os dois resolvem passear por uma das trilhas turísticas que permeiam os parques locais e, eventualmente, caem em um buraco aberto no chão – que guarda bancos de madeira desgastados e objetos religiosos estranhos. Passando a noite nesse “depósito” subterrâneo, Millie e Tim conseguem sair dali apenas para perceberem que algo está errado e que, de alguma maneira, eles estão sendo atraídos um para o outro a ponto de seus membros se fundirem em um único corpo.
O projeto marca a estreia diretorial de Michael Shanks, que também fica responsável pelo roteiro – e, ao longo de breves cem minutos, o realizador arquiteta uma instigante e tenebrosa narrativa que funciona em quase sua completude, pecando aqui e ali com um frustrante e exagerado final que poderia ter sido melhor executado. Shanks sabe muito bem o tipo de enredo que tem em mãos e, à medida que presta homenagens a outros diretores do terror, com jogadas de câmera que fazem menção a Cronenberg pelo uso de planos-detalhe e inclinações para planos-sequência que remontam à estética de James Wan, constrói uma mitologia própria e uma identidade convincente o bastante para nos guiar por essa jornada.

É quase óbvio pensar que o filme é uma metáfora para relacionamentos de codependência emocional, mas Shanks se mostra comprometido em trazer elementos novos e se afastar de alguns arquétipos de personagens bem comuns ao gênero: em outras palavras, a construção dos protagonistas traz fórmulas remodeladas, em que Tim se mostra frustrado por estar à sombra de Millie ao mesmo tempo que morre de medo de perdê-la, fazendo concessões constantes para que a falsa harmonia do casal prevaleça; Millie, por sua vez, não é pintada como vilã, e sim como alguém que quer apenas o melhor para os dois, por mais que isso signifique que tenham que se separar. E, no final das contas, essas gritantes diferenças acabam por aproximá-los em vez de afastá-los (literal e figurativamente).
O escopo trilha um caminho familiar para os fãs de terror e, de maneira brilhante, permite que tropos conhecidos se transformem em um escape entretenido cujo objetivo principal de envolver os espectadores é alcançado sem muitos esforços. Assim, Millie e Tim são catapultados a uma jornada que envolve os deuses da Grécia Antiga e uma releitura livre de Platão para justificar a bizarra conexão física, carnal e emocional que se apossa dos dois – além de reler os clássicos conceitos de “alma gêmea” de maneira inesperada e prática. E, dentre os muitos aspectos que funcionam na obra, a presença magnética de Brie e Franco, que são um casal na vida real, dominam as telonas em uma explosiva química que nos mantém vidrados e presos aos nossos assentos.

O maior obstáculo enfrentado pelo longa se destina à conclusão: Shanks trabalha os dois primeiros atos com minúcia apaixonante, porém, se deixa perder em uma conclusão propositalmente anticlimática que deve dividir a reação da audiência e que, apesar de amarrar as pontas soltas e explicar sem muitas condescendências certos acontecimentos intrigantes, parece não fazer jus ao que foi fomentado.
‘Juntos’ é um bom body horror que, mesmo não sendo irretocável e pincelado com alguns excessos, nos estimula a querer entender o que está acontecendo – fazendo o espectador comprar essa excêntrica história que vale a pena principalmente pelas ótimas performances do elenco.

