Em uma aconchegante sala de cinema em meio às gélidas montanhas que cercam a pequena cidade de Park City, em Utah (EUA), um público desavisado testemunhava pela primeira vez uma narrativa que arrebataria a indústria cinematográfica pelos próximos meses. O ano era 2018 e o palco de todo esse momentum era o Festival de Sundance. Ali, Aneesh Chaganty e Sev Ohanian apresentavam aos apaixonados pelo indie a sinestésica experiência de ‘Buscando…‘. Não era bem um filme, mas sim um evento em que toda e qualquer tecnologia corriqueira se transformava em um narrador onisciente diante dos nossos olhos.
O magnetismo de ver a tela de um MacBook se transformando em um portal para a incessante busca de um pai por sua filha desaparecida fez com que um thriller aparentemente simples se desabrochasse como algo genuinamente revolucionário. E por um tempo, ‘Buscando…’ foi uma bússola para a originalidade. De seu ventre saiu ‘Desaparecida’ (2023), dos mesmos criadores. Do sucesso desse subgênero, saiu outro indie em Sundance 2021, ‘R#J’ – uma releitura de Romeu e Julieta feita pelas telas dos smartphones e dirigida por Carey Williams. Seis anos mais tarde, ‘Justiça Artificial‘ emerge no cinema blockbuster como um filho perdido, tentando resgatar o brilho esquecido de seus antecessores, em um thriller de ação que explora o sombrio futuro da inteligência artificial em um mundo onde estamos cada vez mais vigiados.

Calcando sua trama na assombrosa decadência de Los Angeles e no aumento vertiginoso da criminalidade local, o longa de Timur Bekmambetov nos apresenta a Mercy, um tribunal virtual capaz de julgar e condenar seus réus em poucas horas, sob a perspectiva de maior celeridade no sistema jurídico norte-americano e maior eficácia nos processos legais envolvendo infrações “facilmente” comprovadas. O que deveria ampliar a sensação de segurança se torna um risco, quando um problemático policial é injustamente acusado de matar sua esposa. Diante de sua iminente morte, ele tem apenas uma hora para provar sua inocência, nos levando em sua angustiante jornada em busca de evidências que o livrem de um destino irreversível.
Com sua trama bebendo das fontes mais diversas do cinema dos anos 90 e 2000, ‘Justiça Artificial’ é uma atualização tecnológica da vida em sociedade diante de seu crescente colapso moral, em contraste com a constante evolução da inteligência artificial. Se inspirando em longas como ‘Minority Report’ e ‘Controle Absoluto’, o diretor Bekmambetov traz um toque mais realista e vanguardista para sua versão desse subgênero, flertando com o modelo found footage ao apresentar sua história a partir de câmeras corporais. Câmeras essas que ainda emanam a mesma experiência enérgica e angustiante que a série documental Cops (popularmente conhecida como “Cops com Câmeras”) nos proporcionava na TV a cabo.

Apoiando-se nas performances de Chris Pratt, Rebecca Ferguson e Kali Reis, o thriller policial se apropria do conceito de cidades inteligentes para tentar decifrar quais seriam os reais perigos da constante vigilância da sociedade pelos olhos inquisidores dos governos locais. Trazendo vagas lembranças de como a China tem operado no seu trato com o monitoramento de suas províncias e cidades, o longa ascende debates importantes, mas opta por se concentrar unicamente na história de um homem errático que teria todas as razões para ser condenado, mas ainda assim é inocente.
Expandindo o seu mistério para além do “quem matou?”, a produção sai de sua própria zona de conforto para explorar mais as motivações do crime, vinculando-as ao contexto sociocultural que norteia os personagens. Tentando manter viva aquela reflexão sobre vigilância em tempos de incerteza e desconfiança, o roteirista Marco van Belle ainda pincela sobre as consequências fatais que tal submissão à égide de uma IA pode acarretar em uma população. E ‘Justiça Artificial’ até tenta se aprofundar em um debate poderoso, mas fica sempre no meio do caminho, sem tempo para destrinchar suas ponderações.

Ainda assim, mesmo sem a complexidade que tal tema sugere (e que foi tão bem abordado na mais recente temporada de ‘Black Mirror‘), o diretor e o roteirista cumprem o que prometem quando se trata de puro entretenimento e não furta da audiência a oportunidade de se importar com seu anti-herói – problemático e imperfeito, mas não criminoso. Construindo um protagonista com camadas e um histórico mais elaborado, eles entregam a Pratt uma oportunidade de expandir seu alcance como ator, justamente por mantê-lo boa parte do tempo preso em uma cadeira elétrica que definirá seu destino. Com poucos recursos e praticamente solitário em tela, ele faz o serviço bem feito e consolida seu nome como um herói de ação.
Com uma montagem exemplar que realmente transporta a audiência para essa não tão distópica Los Angeles, o thriller é um cinemão pipoca que peca por ser ambicioso demais em seu argumento e discurso, mas sabe compensar a audiência entregando o entretenimento que ela de fato procura. Equilibrando a balança com sequências de luta que comprovam o talento da ex-boxeadora Kali Reis – agora como atriz – e cenas de perseguição que nos embalam em seu ritmo, ‘Justiça Artificial’ é o suficiente nos tempos de hoje. Longe de ser um thriller scifi que transcederá o tempo, o filme é a combinação eficiente de performances realmente ótimas e uma composição técnica complexa e apaixonante, com um recheio simples, mas bem servido por bons plot twists. E não há absolutamente nada de errado nisso.
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