Uma das coisas mais bacanas que o cinema pode nos proporcionar é a oportunidade de viajar visualmente a lugares que, talvez, nunca tenhamos a chance de conhecer. Ou nos transportar para outros tempos, diferentes do hoje, através dos quais nos deparamos com outras culturas, outros costumes. É isso que muitas vezes o cinema pode nos proporcionar: a expansão dos nossos horizontes. Esta é a sensação que temos com o filme ‘Kokuho – O Preço da Perfeição’, produção japonesa em cartaz nos cinemas brasileiros.

Japão pós-guerra, cidade de Nagasaki, 1964. Conhecemos a arte do Kabuki, cuja origem vem do século XVII em Kyoto e consiste na representação teatral minuciosa, com muita maquiagem e figurino dedicado, e interpretada por homens, mesmo em papéis femininos, pois, quando a arte surgiu, dizia-se que se interpretada por mulheres, isso iria desgraçá-las. Nesse contexto vive Kikuo (Soya Kurokawa), filho de um importante chefe de yakuza mas que, ao contrário do pai, se encanta pela arte do Kabuki. Na mesma noite em que seu pai é assassinado pela gangue rival um importante ator de Kabuki, Hanai Hanjiro II (Ken Watanabe), o vê se apresentando e, posteriormente, o adota. É assim que Kikuo é rebatizado a Toichiro (Ryô Yoshizawa) e passa a treinar com Shunsuke (Ryûsei Yokohama), filho de Hanai. Assim, começa uma história de amor, amizade, família, ciúmes e vingança.
‘Kokuho – O Preço da Perfeição’ é construído nos moldes da jornada épica, mas com uma história familiar. Ou seja, em quase três horas de filme, temos tanto a sensação de estarmos vendo algo grandioso nas telonas (como as famosas sagas do herói moderno) mas com um sabor novelesco que só os doramas (ou, no caso, os j-dramas) conseguem prover. A mistura dessas duas técnicas transforma ‘Kokuho – O Preço da Perfeição’ num filme que fixa na nossa memória, mesmo contando uma história de um tempo e de um lugar diferente do Brasil.

O roteiro de Satoko Okudera constrói uma saga épica familiar baseada no romance homônimo de Shûichi Yoshida. A direção de Sang-il Lee retrata a história com pausas dramáticas e intensidade tal qual as que são sentidas pelos leitores de sagas de mangás épicos. Ou seja, acompanhamos toda a história de ambas as famílias sentido cada evento vivido por eles com a profundidade certa para nos manter pertencentes àquele mundo e não nos transportarmos de volta ao presente. Em tempos de muita tecnologia, conseguir isso com um filme de três horas é um elogio ao diretor Sang-il Lee.
‘Kokuho – O Preço da Perfeição’ foi merecidamente indicado ao Oscar de Melhor Cabelo e Maquiagem, pois o trabalho do longa está todo debruçado nesse quesito. Em se tratando de dois protagonistas que não só são atores, mas também precisam se transmutar em máscaras cosméticas para se transformarem em personagens agêneros, Sang-il Lee faz o espectador acompanhar esse processo ao posicionar sua câmera bem ali, no processo da maquiagem, na perfeição dos traços, no surgimento das rugas – que, em si, são os resquícios da humanidade que cisma em se manter às vistas de uma imagem idolatrada por uma nação. O filme merecia também chegar ao short list de figurino e desenho de produção.
Poético, dramático e cativante, ‘Kokuho – O Preço da Perfeição’ ilustra a beleza profunda de uma das artes mais antigas do Japão. Simplesmente hipnotizante.


