“No matter what, no matter what: you got to strut”.
São com esses versos que “Runway” se inicia: a primeira faixa da trilha sonora original da aguardada sequência ‘O Diabo Veste Prada 2’ é encabeçada por ninguém menos que duas talentosas vencedoras do Grammy: a titânica Lady Gaga e a emblemática rapper Doechii – ambas unindo passado e presente em um arauto celebratório do mais puro hedonismo que, pensada como atmosfera do vindouro longa-metragem, funciona do começo ao fim.
Desde o anúncio de que a clássica comédia dramática lançada em 2006 ganharia uma continuação duas décadas depois de chegar aos cinemas, vários rumores apontavam que Gaga poderia fazer uma participação especial na história – o que, em poucos meses, foi oficialmente confirmado. Não apenas isso, mas com a escalação da Mother Monster para o elenco, outros boatos ganharam força nas redes sociais de que ela entraria como produtora executiva da trilha sonora. Para o contínuo agrado dos fãs e dos apreciadores de boa música, isso também se confirmou com o primeiro snippet do lead single divulgado com o trailer final.
Não demorou muito até que a versão completa chegasse às plataformas de streaming, configurando-se como uma canção própria para o mundo empresarial regado a haute couture e a passarelas de ‘O Diabo Veste Prada’. Logo, não é nenhuma surpresa que a track irrompa em uma mistura vibrante e efervescente de house e de pop rap, apoiando-se no talento incomparável de Gaga e de Doechii para alcançar o claro objetivo de nos entreter e nos preparar para mais uma aventura pelo mundo da moda. Todavia, conhecendo a bagagem cultural que todos os nomes envolvidos na canção possuem – e cujo grupo ainda é integado por Andrew Watt, Cirkut, D’Mile, Jayda Love e até mesmo Bruno Mars -, o que existe aqui é a originalidade como fruto da nostalgia, em um elo entre passado e presente que nos convida imediatamente às pistas de dança.
É notável como cada artista explora ao máximo suas respectivas áreas de expertise – e é esse encontro aparentemente profuso que traz brilho e dinamismo aos breves dois minutos e cinquenta de duração. As pulsões sintéticas do conhecido house de Chicago, movidos às irrupções four-on-the-floor do piano e da bateria, se encontram com a deliciosa verborragia do pop rap e, à medida que nos convida a uma viagem no tempo, não deixa de lado o aspecto contemporâneo. Logo, as múltiplas referências ao cenário ballroom e à cultura dos club kids aparece como força-motriz de cada um dos versos, proferidos com uma instigante e inescapável teatralidade que já é própria de Gaga e de Doechii.
Mesmo que os elementos convirjam para um espectro que vem ganhando mais e mais espaço no cenário musical desde 2020, a forte e proposital dissonância instrumental pode não ser para todos os ouvidos e, sem sombra de dúvida, fará de “Runway” uma das músicas mais divisivas do ano. Entretanto, é essa mesma ousadia e despreocupação extrema que lhe garante uma sinestesia inebriante e animadora, que nos revitaliza com uma poderosa dose de autoestima e que garante divertidos versos como “Monday to Sunday, I can turn the dancefloor into a runway” e as jocosas “Sashay, Doech-ay” e “Sashay, Gag-ay”.
Lembrando que a faixa já está disponível nas plataformas de streaming.
