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Crítica | ‘Lilo & Stitch’ é um dos MELHORES remakes em live-action da Disney


O império da Walt Disney Studios não se sagrou como um dos maiores da sétima arte por qualquer razão: fosse pelas revolucionárias técnicas artísticas empregadas em títulos como ‘Branca de Neve e os Sete Anões’, ‘Fantasia’ e ‘Bela Adormecida’, ou pela renascença criativa que passou a partir de 1989 com ‘A Pequena Sereia’, a Casa Mouse sempre foi um antro de inspiração que reuniu os nomes mais habilidosos da sétima arte para criar espetáculos que continuam a atravessar gerações. E, por essa razão, não é nenhuma surpresa que os executivos por trás da companhia tenham resolvido, há um bom tempo, trazer suas clássicas animações ao novo público através de remakes em live-action.

Entre altos e baixos, a Disney conseguiu acertar em releituras sólidas e bem-vindas, como foi o caso de ‘Cinderela’, ‘Mogli – O Menino Lobo’ e ‘A Bela e a Fera’, mesmo tendo escorregado com longas como ‘Pinóquio’ e ‘O Rei Leão’. E, depois do polêmico ‘Branca de Neve’, que se tornou um fracasso de público e dividiu a crítica internacional, era necessário que uma reformulação fosse feita. Qual foi nossa surpresa quando Lilo & Stitch, remake do clássico de 2002, foi anunciado como um dos novos projetos live-action do estúdio: reunindo um time muito competente e mantendo-se fiel à história original, a nova versão dessa comovente história funciona em quase todos os aspectos e se transforma em uma das melhores investidas da Casa Mouse nos últimos anos.



Para aqueles não familiarizados, o enredo é centrado em Stitch (cuja voz é cortesia de Chris Sanders), um alienígena azul criado por um cientista maluco e que, a princípio, deveria funcionar como a arma mais perigosa e mortal do universo. Porém, Stitch, também conhecido como Experimento 626, é condenado ao exílio pela Grande Conselheira (Hannah Waddingham), líder da União Federativa da Galáxia, por não ter nenhum traço de compaixão ou bondade. Conseguindo escapar, o alienígena entra em uma cápsula de fuga e vai parar no Havaí, escondendo-se do Dr. Jumba Jookiba (Zach Galifianakis), responsável por criá-lo, e do Agente Pleakley (Billy Magnussen), que conhece a cultura e os costumes humanos e responde aos pedidos da Grande Conselheira.

Passando-se por um cachorro, Stitch é adotado pela sonhadora e solitária Lilo (Maia Kealoha), que nunca se sentiu parte de um grupo de amigos e que mora apenas com a irmã, Nani (Sydney Elizebeth Agudong), após a morte prematura dos pais. E, enquanto Lilo se envolve em vários problemas, talvez como forma de lidar com a solidão constante ou com uma saudade que ainda não se curou, ela se vê completa a presença daquele estranho animal que parece movido a caos – mas que mostra ter o lugar no coração certo quando o assunto se volta para sua Ohana (família, como foi eternizado pela animação original).

Dirigido por Dean Fleischer Camp, que ficou conhecido por seu trabalho na aclamada produção ‘Marcel the Shell With the Shoes On’, o live-action presta incontáveis homenagens ao filme do início dos anos 2000, porém, sem deixar de lado uma identidade que vai ganhando forma minuto a minuto. Camp sabe como trabalhar o material pelo qual fica responsável, transformando os costumeiros tropos da Disney em uma comédia dramática coming-of-age que lida com assuntos densos e complexos através de uma lúdica ambientação. Para além do conceito de Ohana, que não se refere apenas aos parentes de sangue, e sim aos inquebráveis laços que formam um núcleo familiar, temos incursões sobre perda e luto, resiliência, sacrifício e confiança – ainda mais quando nos voltamos às intermináveis batalhas que Nani enfrenta para manter a guarda de Lilo, mesmo que isso signifique colocar em suspensão seus sonhos e suas projeções.

Ao longo de quase 110 minutos, o roteiro assinado por Chris Kekaniokalani Bright e Mike Van Waes não apenas cumpre com o prometido, como aprofunda certas delineações que ultrapassam as nossas expectativas – em alguns momentos, inclusive, ultrapassando a qualidade da animação. O núcleo sci-fi do qual Stitch provém parte de premissas básicas do gênero e convergem para os dramas enfrentados por Lilo em sua realidade quase imutável, que parece se transformar por completo quando faz um pedido a uma estrela cadente (sem saber que o asteroide, na verdade, era a nave de Stitch em rota de colisão com a Terra). Dessa maneira, o choque de dois universos totalmente diferentes ganha cor e vibra em um espetáculo muito bem dosado para os espectadores – e cujas simples e funcionais escolhas artísticas nos lembram de obras como ‘Pequenos Invasores’ e ‘Planeta 51’.

O elenco faz um ótimo trabalho, seja pelo comprometimento notável de Kealoha em sua bem-vinda estreia no cenário mainstream ou pela presença de nomes certeiros como Magnussen, Galifianakis, Courtney B. Vance como o agente federal Cobra Bubbles, e outros. O destaque, de fato, destina-se a Agudong, que rouba os holofotes com uma rendição espetacular como Nani, denotando as preocupações de uma irmã mais velha que foi obrigada a tornar-se mãe para cuidar de Lilo, arremessada em um arco de amadurecimento mandatório. Agudong, inclusive, encontra um merecido breakthrough que, com sorte, lhe garantirá papéis mais diversos num futuro próximo.

O remake em live-action de Lilo & Stitch é um bem-vindo acerto de uma das companhias mais prolíficas de todos os tempos – e após direções artísticas que, como bem sabemos, não funcionaram como deveriam. Com o coração no lugar correto e navegando por narrativas intensas através de uma remodelagem atenuada, a obra funciona em sua completude e nos emociona do começo ao fim.

Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.
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