InícioCríticasCrítica | 'Looney Tunes - O Filme: O Dia Que A Terra...

Crítica | ‘Looney Tunes – O Filme: O Dia Que A Terra Explodiu’ resgata ícones em aventura 2D hilária


Em quase 100 anos de história dos Looney Tunes, é quase impossível de acreditar que eles jamais tiveram um longa 100% animado criado exclusivamente para os cinemas, mas é verdade. Diferentemente dos curtas da década de 1940 e dos filmes Space Jam: O Jogo do Século (1996), Looney Tunes: De Volta à Ação (2003) e Space Jam: Um Novo Legado (2021), que misturaram a animação com personagens vividos por atores de carne e osso, Looney Tunes – O Filme: O Dia Que A Terra Explodiu chega aos cinemas para pagar essa ‘dívida’ que as telonas tinham com esses personagens, lançando seu primeiro filme completamente animado nos cinemas.

Dirigido por Peter Browngardt, o longa não poderia estar em melhores mãos. Apaixonado pelas animações clássicas, Peter é um nostálgico. Ao mesmo tempo, ele é um apaixonado pela comédia nonsense. Para quem não conhece seu trabalho, Browngardt trabalhou nos novos curtas de Tom & Jerry, que resgataram o visual clássico dos personagens em histórias modernas, mas seu maior destaque é mesmo nos Looney Tunes Cartoons. Produzidos entre 2020 e 2023, os novos desenhos do grupo foram lançados majoritariamente durante a pandemia, promovendo esse resgate da comédia clássica de personagens como Pernalonga, Patolino, Gaguinho, Frajola, Piu-Piu, Taz e muitos outros.



E a palavra que credenciou Peter a assumir o cargo do primeiro filme 100% animado dos Looney Tunes nos cinemas foi essa: “resgate”. Em seu trabalho na série, o animador pegou os designs clássicos dos personagens e os modernizou, mas sem perder a personalidade deles. Mais do que isso, as novas aventuras apostaram naquele humor típico do Tex Avery, misturado com o coração e genialidade dos curtas de Chuck Jones. A parte mais nova apostava em histórias mais atuais. Por exemplo, existe um episódio todo dedicado ao Frajola tentando fugir da castração. É genial, é sem noção, é hilário.

E nesses novos curtas, uma dupla voltou a roubar a cena, estrelando alguns dos melhores episódios: Patolino e Gaguinho. Eles são completamente opostos, mas sempre estão metidos em aventuras juntos. Essa química complementar deles foi a decisão perfeita para estrelar o novo filme, que já está em cartaz.

E um dos grandes pontos de Looney Tunes – O Filme: O Dia Que A Terra Explodiu  é que ele não parte da já batida premissa de que esses personagens estão defasados, que não há mais espaço para eles. Muito pelo contrário. A trama acontece em uma cidade comum, na qual humanos e Looney Tunes vivem tranquilamente. Nesse contexto, Gaguinho e Patolino são praticamente irmãos que não gostam de trabalhar. A duplinha vive junta em uma casa e agora se prepara para a inspeção anual da comunidade, já que existe um padrão de beleza e segurança para as propriedades do bairro. Quem não cumpri-las poderá ser despejado.

E tudo parecia ir bem, até que um asteroide cai do espaço e atravessa o telhado da casa deles bem no dia da inspeção. Sob o risco de perder a casa, a duplinha se submete ao processo mais humilhante possível: eles vão procurar emprego. Mas como alguém contrata um porco com gagueira e um pato com parafusos a menos para trabalhar em sua empresa? Porém, após uma divertida sequência de falhas, eles conseguem um emprego como operários em uma fábrica de chicletes. E quando tudo parecia ir bem, o Patolino descobre que o alienígena que destruiu seu telhado não só está na fábrica, como também está infectando os chicletes para promover uma invasão ao planeta Terra.

Dentre todas as qualidades desse filme, a que mais chama atenção, além do humor espetacular, é a beleza da animação. Sim, é um longa animado em 2D. Em tempos em que a animação 3D tomou conta das telonas por ser mais barata e rápida de ser feita, os Looney Tunes estreiam nos cinemas em uma aventura animada manualmente em 2D. Esse resgate da técnica que fez gerações se apaixonarem por desenhos animados dá a esse filme uma sensação tão grande de carinho, é quase um abraço em forma de animação.

Além disso, parte importante da trama é a relação entre Patolino e Gaguinho. E aqui, pela primeira vez nessa história quase centenária, eles abordam como começou essa amizade entre os dois. O filme mostra eles sendo abandonados ainda bebês e sendo adotados por um fazendeiro amoroso e muito paciente, que cria os pequenos com o ensinamento de que as coisas mais importantes da vida são estarem sempre juntos e terem um teto sobre as cabeças. A forma como abordam essa paternidade do fazendeiro é fofa, mas também muito divertida. Ele tem alguns momentos que relembram as participações de Mufasa, em O Rei Leão (1994), só que de forma hilária.

A mescla do roteiro entre a trama e os momentos sem noção de pura comédia, apostando em algumas referências sensacionais à Cultura Pop atual, é muito bem equilibrada. Eles coexistem de forma orgânica, bem menos agressiva do que em episódios de séries como Uma Família da Pesada, por exemplo. É como se a direção conseguisse reunir o que há de melhor nessa história quase centenária dos personagens em um único filme. E isso funciona muito por conta dessa química entre o trio principal. Patolino é como um irmão caçula, que precisa de ajuda e não tem muito filtro. Gaguinho, por outro lado, é a ‘voz da razão’. Assumindo um papel de irmão mais velho, ele tenta ser o guia, o responsável da relação. No entanto, os papéis se invertem quando a Petúnia entra em cena.

Perdidamente apaixonado, o porquinho passa a ignorar certas atitudes e não percebe que realmente há uma invasão alienígena em curso. Ele está tão preocupado em manter aparências e impressionar a amada, que acaba passando por cima da importância de estar sempre junto com seu irmãozinho. Não que isso seja desenvolvido de forma dramática – afinal, é o Patolino do outro lado -, mas é muito divertido ver o desenrolar dessa situação.

Promovendo esse resgata dos clássicos, mas sem perder a diversão do humor atual, Looney Tunes – O Filme: O Dia Que A Terra Explodiu é diversão pura e simples para fazer gargalhar todas as gerações. É também uma chance raríssima de poder ver uma animação 2D nas telonas, talvez até mesmo de apresentar essa técnica tão apaixonante para uma molecada que cresceu com a mente moldada pelo 3D.

Em tempos de tramas cada vez mais complexas, Patolino e Gaguinho chegam para mostrar que os Looney Tunes seguem relevantes, trabalhando com muita simplicidade, bom humor e genialidade. Os três pilares que fizeram deles um sucesso capaz de atravessar gerações.

Looney Tunes – O Filme: O Dia Que A Terra Explodiu está em cartaz nos cinemas.
Pedro Sobreirohttps://cinepop.com.br/
Jornalista apaixonado por entretenimento, com passagens por sites, revistas e emissoras como repórter, crítico e produtor.
MATÉRIAS
CRÍTICAS

NOTÍCIAS