Há mais de uma década, o lendário musicista David Bowie comentou que acreditava que a artista neozelandesa Lorde era o “futuro da música”. De inúmeras formas, Bowie não estava errado em sua declaração – ainda mais levando em conta a sólida estreia da artista com ‘Pure Heroin’ e seu contínuo sucesso com a obra-prima ‘Melodrama’, que a sagrou como uma das maiores artistas do século. Afinal, Lorde, desde seu début oficial no cenário fonográfico, sempre fez questão de nos apresentar elementos novos rearranjados com aspectos dialógicos ao mainstream e ao escopo independente – motivo pelo qual faixas como “Royals”, “Green Light”, “Team” e tantas outras ficaram eternizadas através de sua identidade única.
Neste ano, Lorde se prepara para fazer um antecipado comeback ao mundo da música com o ambicioso ‘Virgin’, cujo lançamento está agendado para o próximo dia 27 de junho. As boas novas vêm quase meia década depois de seu último compilado de originais, ‘Solar Power’, que trouxe uma perspectiva mais doce, tranquila e sonhadora – e dividiu tanto a crítica quanto o público. Em abril, ela nos presenteou com a ótima “What Was That”, mergulhando de cabeça em um encontro entre passado e presente para narrar um relacionamento antigo que ainda gera marcas no eu lírico – e que trouxe uma mistura ótima de synth-pop e electro-pop. Agora, está na hora de conhecermos mais uma das faixas do novo álbum: “Man of the Year”.
Iniciando com as cândidas notas de um impactante baixo, Lorde promove uma autoanálise que discorre sobre identidade de gênero e a necessidade mandatória de se encaixar em algum rótulo para, consequentemente, se encaixar em algum grupo. Afinal, em 2023, ela já havia comentado sobre sua expressão identitária entrando em conflito com escolhas de vestimentas e como se portar – algo que a propulsionava a “tentar visualizar uma versão de mim mesma que era represenativa de como [a questão do] gênero soava àquele momento”. Dessa forma, a track inédita emerge como um emblemático discurso que se apoia com força em aspectos semióticos para que Lorde reclame a coroa que lhe pertence – seja da forma como deseja se mostrar.
Presa em um cômodo claustrofóbico e cheio de terra, Lorde tampa os seios com uma fita adesiva e dança em um desesperado anseio pela libertação – e a produção, assinada por ela mesma e por Jim-E Stack, acompanha essa jornada ao incrementar pulsões de sintetizadores e de pianos elétricos, bem como uma ecoante guitarra elétrica que se transmuta em personagem principal. Cada elemento, iniciado com sutileza, explode em exageros propositais, vibrando em dissonâncias urgentes que refletem a complexidade da vida e do ser humano em si. E, à medida que a música entra em crescendo, Lorde destrói nossas expectativas com uma conclusão abrupta e que, de maneira quase óbvia, dialoga com baladas pop que explorou em anos anteriores.
A performer trabalha de maneira sinestésica e, faixa a faixa, deseja garantir que tenhamos a mesma experiência pela qual ela passou ao construir a canção. E, dessa maneira, esquadrinhar territórios da psique e do funcionamento das múltiplas camadas da mente humana torna-se o fio condutor para essa reconquista – passando pela dissociação de sua individualidade com a “morte do meu ego” e reencontrando-se “nova em folha” para compreender que a única capaz de amá-la da maneira que ela precisa é si própria.
Lembrando que “Man of the Year” já está disponível nas principais plataformas de streaming.
