Crítica | Madres Paralelas – Pedro Almodóvar faz seu MELHOR filme da década, e abre Festival do Rio 2021

Após dois anos parado por conta da pandemia do corona vírus e uma breve semana de estreias nacionais em julho, o Festival do Rio finalmente voltou ao seu formato presencial, trazendo ao público carioca o que vem de melhor do cinema mundial para os próximos meses. E, seguindo uma tradição, a noite de abertura foi com nada menos que ‘Madres Paralelas’, novíssimo filme do diretor espanhol Pedro Almodóvar, cujos filmes sempre estrearam – e causaram! – nas edições anteriores do Festival.

Janis (Penélope Cruz) é uma renomada fotógrafa que está fazendo uma sessão com o antropólogo Arturo (Israel Elejalde), com quem acaba se relacionando e de quem engravida. Por ser Arturo casado, Janis o liberta de qualquer responsabilidade com a criança, decidida a ter seu filho sozinha. Então, no dia do parto, conhece Ana (Milena Smit), uma jovem mãe com quem trava amizade. O tempo passa e as duas mantêm o contato, trocando impressões sobre a experiência da maternidade. Porém, quando Arturo conhece a filha e planta uma dúvida na cabeça de Janis, ela não irá sossegar até descobrir a verdade completa.

Em duas horas de filme, ‘Madres Paralelas’ pode ser dividido em duas histórias: uma bastante evidente (a jornada pessoal da protagonista em se tornar mãe) e uma que fica tão de pano de fundo, que quase não lhe prestamos atenção (o motivo pelo qual Janis e Arturo se aproximam, que é a possibilidade de ele escavar a fossa do povoado em que Janis nasceu, onde estariam os restos mortais dos homens do povoado, mortos pela ditadura). Ao escrever essas duas histórias em paralelo, Pedro Almodóvar aproxima seu público tradicional, mais velho, com a juventude que o está descobrindo agora, mas que não tem tanta profundidade acerca de temas importantíssimos da história da Espanha. É ao fim do longa que nos damos conta do brilhantismo dessa construção. Pelo viés da ficção encenada por uma atriz de renome, o diretor espanhol quer apontar aos jovens a importância de não silenciar a história sombria de seu país; ao contrário, é necessário revirarmos as fossas e trazermos à tona as verdades que tentam esconder sobre os tempos das ditaduras e das guerras.

Ainda que essa tenha sido a motivação do filme, não é sobre este tema que ‘Madres Paralelas se debruça. No enredo principal, encontramos todos os elementos almodovarianos principais, como as cores fortes (especialmente o vermelho), mulheres poderosas, crises nervosas, alta moda, um leve toque de thriller no drama pessoal e, claro, a participação da querida atriz Rossy de Palma, figurinha fácil de suas produções. Penélope Cruz volta a apresentar uma ótima performance no protagonismo de uma mulher forte, ainda que imperfeita, sabendo esconder suas emoções na hora certa e apresentando conflito para o espectador sem pronuncias palavras.

Conduzido pelo viés do thriller, Pedro Almodóvar faz de um drama comum feminino um argumento valiosíssimo sobre nunca nos voltarmos contra nossas raízes, mostrando às atuais gerações a importância de lutar pela verdade, ainda que muitas famílias ainda sofram por não conseguirem essa informação. Não à toa, ‘Madres Paralelas’ termina com uma citação de Eduardo Galeano, em um convite à reflexão. É o melhor filme de Almodóvar desta década, e felizmente chegará à Netflix já em 2022.

Notícias

‘Neagley’: Série derivada de ‘Reacher’ ganha primeiras imagens e data de estreia

'Neagley', série derivada de 'Reacher', focada na personagem Frances...

Live-action de ‘A Lenda de Zelda’ ganha data de estreia no Brasil

A Sony Pictures finalmente anunciou quando a adaptação live-action...

10 FILMES OBRIGATÓRIOS em qualquer folga que você tiver

Uma das coisas mais divertidas quando estamos pensando em...

Crítica | ‘Kaira e o Temporal’ – Um obra repleta de simbolismos e criatividade [Festival Cinemato 2026]

Rotinas controladas, forças rebeldes, última esperança. Se pensarmos rapidamente,...

‘Amor, Teoricamente’: Amazon MGM anuncia adaptação do BEST-SELLER de Ali Hazelwood

Segundo o Deadline, a Amazon MGM Studios adquiriu os direitos intelectuais...

Colin Farrell entra para o elenco do SUSPENSE dramático ‘Bad Bridgets’

O suspense dramático de época 'Bad Bridgets' anunciou sete novos...

Netflix anuncia série live-action baseada na POPULAR franquia de games ‘Persona’

Segundo a Variety, a Netflix está desenvolvendo uma série live-action baseada...

‘Enrolados’: Imagem de bastidores do live-action mostra a TORRE da Rapunzel; Confira!

As filmagens do remake em live-action de 'Enrolados' já começaram - e as...
Janda Montenegro
Janda Montenegrohttps://cinepop.com.br
Janda Montenegro é doutora-pesquisadora em Literatura Brasileira no Programa de Pós-Graduação em Letras da UFRJ com ênfase nas literaturas preta e indígenas de autoria brasileira contemporâneas. De origem peruana amazônica, Janda é uma palavra em tupi que significa “voar”. Desde 2018 trabalha como crítica de cinema nos portais CinePOP e Cabine Secreta. É curadora, repórter cultural, assistente de direção e roteirista. Co-proprietária da produtora Cabine Secreta e autora dos romances Antes do 174 (2010), O Incrível Mundo do Senhor da Chuva (2011); Por enquanto, adeus (2013); A Love Tale (2014); Três Dias Para Sempre (2015); Um Coração para o Homem de Lata (2016); Aconteceu Naquele Natal (2018,). O Último Adeus (2023). Cinéfila desde pequena, escreve seus textos sem usar chat GPT e já entrevistou centenas de artistas, dentre os quais Xuxa, Viola Davis, Willem Dafoe, Luca Guadanigno e Dakota Johnson.