Após dois anos parado por conta da pandemia do corona vírus e uma breve semana de estreias nacionais em julho, o Festival do Rio finalmente voltou ao seu formato presencial, trazendo ao público carioca o que vem de melhor do cinema mundial para os próximos meses. E, seguindo uma tradição, a noite de abertura foi com nada menos que ‘Madres Paralelas’, novíssimo filme do diretor espanhol Pedro Almodóvar, cujos filmes sempre estrearam – e causaram! – nas edições anteriores do Festival.

Janis (Penélope Cruz) é uma renomada fotógrafa que está fazendo uma sessão com o antropólogo Arturo (Israel Elejalde), com quem acaba se relacionando e de quem engravida. Por ser Arturo casado, Janis o liberta de qualquer responsabilidade com a criança, decidida a ter seu filho sozinha. Então, no dia do parto, conhece Ana (Milena Smit), uma jovem mãe com quem trava amizade. O tempo passa e as duas mantêm o contato, trocando impressões sobre a experiência da maternidade. Porém, quando Arturo conhece a filha e planta uma dúvida na cabeça de Janis, ela não irá sossegar até descobrir a verdade completa.



Em duas horas de filme, ‘Madres Paralelas’ pode ser dividido em duas histórias: uma bastante evidente (a jornada pessoal da protagonista em se tornar mãe) e uma que fica tão de pano de fundo, que quase não lhe prestamos atenção (o motivo pelo qual Janis e Arturo se aproximam, que é a possibilidade de ele escavar a fossa do povoado em que Janis nasceu, onde estariam os restos mortais dos homens do povoado, mortos pela ditadura). Ao escrever essas duas histórias em paralelo, Pedro Almodóvar aproxima seu público tradicional, mais velho, com a juventude que o está descobrindo agora, mas que não tem tanta profundidade acerca de temas importantíssimos da história da Espanha. É ao fim do longa que nos damos conta do brilhantismo dessa construção. Pelo viés da ficção encenada por uma atriz de renome, o diretor espanhol quer apontar aos jovens a importância de não silenciar a história sombria de seu país; ao contrário, é necessário revirarmos as fossas e trazermos à tona as verdades que tentam esconder sobre os tempos das ditaduras e das guerras.

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Ainda que essa tenha sido a motivação do filme, não é sobre este tema que ‘Madres Paralelas se debruça. No enredo principal, encontramos todos os elementos almodovarianos principais, como as cores fortes (especialmente o vermelho), mulheres poderosas, crises nervosas, alta moda, um leve toque de thriller no drama pessoal e, claro, a participação da querida atriz Rossy de Palma, figurinha fácil de suas produções. Penélope Cruz volta a apresentar uma ótima performance no protagonismo de uma mulher forte, ainda que imperfeita, sabendo esconder suas emoções na hora certa e apresentando conflito para o espectador sem pronuncias palavras.

Conduzido pelo viés do thriller, Pedro Almodóvar faz de um drama comum feminino um argumento valiosíssimo sobre nunca nos voltarmos contra nossas raízes, mostrando às atuais gerações a importância de lutar pela verdade, ainda que muitas famílias ainda sofram por não conseguirem essa informação. Não à toa, ‘Madres Paralelas’ termina com uma citação de Eduardo Galeano, em um convite à reflexão. É o melhor filme de Almodóvar desta década, e felizmente chegará à Netflix já em 2022.



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