Crítica | Mais uma Chance - Odisseia pungente da concepção de uma vida

Crítica | Mais uma Chance - Odisseia pungente da concepção de uma vida

Nota:

Angústia é palavra que define o drama Mais Uma Chance (Private Life), de Tamara Jenkins, lançado pela Netflix. Com um argumento algumas vezes já debatido nos filmes sobre infertilidade, a diretora consegue fugir do lugar comum da criança desejada para a frieza dos métodos, as inseguranças do procedimento e o dinheiro investido no projeto.

Com as magistrais atuações de Kathryn Hahn (Perfeita é é a Mãe!) e Paul Giamatti (Sideways - Entre Umas e Outras), intérpretes do casal Rachel e Richard, a gente mergulha nos sentimentos frustrados dos personagens, vagando por consultórios lotados, passando por procedimentos invasivos e questionando-se sobre suas escolhas.

A primeira cena do filme foca no quadril de Rachel, enquanto Richard prepara uma injeção, tornando a cama do casal ao invés de ninho de amor, uma lugar de preparação para ovulação controlada. Um começo simbólico para a odisseia entre a perda da relação amorosa e a busca por um obsessivo desejo.



Já acima dos 40 anos, o casal tenta de todas as formas ter uma família, mas seus corpos parecem ser um obstáculo. Para transpassá-lo, eles buscam doadoras de óvulos, sites de doações e uma esperança sobrecomum. Conhecida por sua sensibilidade em A Família Savage (2007), sua última contribuição no cinema, Jenkins apoia o roteiro no momento da vida do casal em que nada mais faz sentido, além de ter um herdeiro.

Apesar do mundo ao redor continuar a girar, ambos vão a eventos sociais e possuem carreiras - ela escritora, ele um pequeno empresário -, a vida e as suas conversas se resumem ao desafio de conceber uma vida. O humor seco faz parte da narrativa e da personalidade do casal que o utiliza sob medida para exalar os seus receios e frustrações, no lugar do choro e lamúrias.

Nessa ebulição de desapontamentos, visualizamos um flashback de quando eles tentaram a adoção por um site na internet e todo o processo pungente da expectativa e do desencanto. As discussões sobre desistir entrecortam os planos, no entanto, eles perseguem e a esperança ressurge na figura da sobrinha postiça do casal, Sadie (Kayli Carter).

A jovem de 25 anos acaba de abandonar a faculdade e pede para passar um tempo na casa deles em Nova York. Estimados pela menina, eles começam a fazer parte do dia a dia um do outro até o ponto deles pedirem a ela para ser a sua doadora de óvulo. Obviamente, não é uma decisão fácil, a mãe de Sadie (Molly Shannon) é totalmente contrária ao projeto, além de todas as complicações e privações envolvidas.

Mais Uma Chance é um peregrinação sobre a vida e os seus contornos para alcançar um objetivo. Por vezes, os protagonistas se interrogam sobre como será ser um pai e uma mãe, já que a concepção tem sido tão excruciante. O público testemunha os sentimentos confusos, as dúvidas, se envolve e torce para um final feliz, no entanto, este é um retrato de algo além da força de vontade.

Se antes os filmes sobre o processo apelavam para a comédia e a satisfação final de que todo esforço vale a pena, vide As Coisas Engraçadas do Amor (1990), Um Sorriso Como o Seu (1997) e Como Fazer Bebês (2000), Tamara Jenkins não nos deixa confortáveis em nenhum momento. O final de Mais Uma Chance é mais um momento de inquietude. É uma história, com certeza, para ser vista, mas não vai ser bonita, muito menos relaxante.





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