Dizem que o dinheiro não traz felicidade, mas todos nós, que ficamos no corre todos os dias para pagar os boletos, sabemos que isso não é verdade. Dinheiro traz conforto, paz, estabilidade, possibilidade de planejar as coisas, tirar férias, poder descansar. Infelizmente, não é todo mundo que tem esse privilégio – daí, por exemplo, tantos realities show com premiações milionárias, que faz o povo desejar isso para mudar de vida. E é mais ou menos isso que move o protagonista de ‘Manual Prático da Vingança Lucrativa’, thriller dramático que chega hoje aos cinemas brasileiros.

Mary Redfellow (Nell Williams) era uma jovem rica e sonhadora que, num dos bailes que sua família dava, conheceu um jovem músico, por quem se apaixonou e engravidou. A notícia não foi bem recebida pelo patriarca, Whitelaw (Ed Harris, de ‘O Show de Truman‘), que deu-lhe um ultimato: ou tirava a criança, ou seria expulsa da família. Sem nem titubear, Mary deixou tudo para trás e foi viver sua vida com Beckett (Grady Wilson), seu filho. Com o passar do tempo, Mary contou a verdade a Beckett e lhe fez prometer que, quando morresse, ele ia atrás do que era dele por direito. Anos se passam e Beckett (Glen Powell, de ‘Todos Menos Você‘), agora adulto, reencontra seu antigo amor de infância, Julia (Margaret Qualley, de ‘A Substância‘), que o faz relembrar da promessa feita à mãe.
O roteiro de ‘Manual Prático da Vingança Lucrativa’ propõe um storytelling envolvente para contar a história desse thriller dramático: em vez de apenas mostrar os acontecimentos, o roteiro de John Patton Ford o faz pela voz do protagonista – que se encontra numa situação X e conta toda sua trajetória de vida a uma outra pessoa; dessa forma, ao mesmo tempo conta tudo ao espectador, com direito a interrupções e comentários para autodefesa sobre os episódios enfrentados que os levou à situação em que se encontra.

Para contar essa história, o roteiro não se furta em utilizar subterfúgios conhecidos do público que curte um bom suspense, provocando o protagonista ao seu limite em prol do benefício da herança polpuda. E Beckett vai, portanto, se enrolando e se comprometendo ao ponto de não retorno. Nesse viés, podemos comparar ‘Manual Prático da Vingança Lucrativa’ com clássicos como ‘Snatch – Porcos e Diamantes’, ‘Knives Out’ ou ‘Os Suspeitos’, porém, numa pegada mais pipocão. Mas também por isso, depois de dois ou três elementos “resolvidos” na jornada de Beckett, digamos assim, a história ganha uma barriga, afinal, já sabemos o que irá acontecer (ou, o que é preciso acontecer) para o enredo chegar ao seu ponto de partida.
Glen Powell carrega bem os sentimentos conflitantes e ambiciosos do pobre menino rico do protagonista Beckett, mas quem rouba a cena é a deslumbrante Margaret Qualley, completamente à vontade no papel de uma menina rica mimada e mandona. A química entre eles, provida pela relação de poder e submissão, encanta e embala a história até seu derradeiro fim. Méritos, também, do diretor John Patton Ford, que escolheu as luzes certas para sua dupla de atores e bons enquadramentos para extrair o melhor deles em personagens um tanto quanto desprezíveis, embora adoráveis.
Alternativa às listas de premiações e aos pipocões genéricos, ‘Manual Prático da Vingança Lucrativa’ estreia como uma boa opção de entretenimento que traz algo de diferente do padrão, misturando suspense, drama e adrenalina em doses constantes ao longo de uma hora e quarenta e cinco.

