Crítica | Máquinas Mortais – Produção de Peter Jackson é de encher os olhos

Crítica | Máquinas Mortais – Produção de Peter Jackson é de encher os olhos

Nota:

Mad Max, Steampunk e HQs

A esta altura não existe mais qualquer dúvida do potencial de ambição do diretor Peter Jackson. Com produções bilionárias em seu currículo, que renderam o dobro ou triplo de seu orçamento mundialmente (vide a trilogia Senhor dos Anéis, O Hobbit e King Kong), o cineasta tem cacife de sobra para traduzir em tela o inimaginável.

E se os livros de Senhor dos Anéis eram tidos como inadaptáveis durante décadas ao cinema, o mesmo pode ser dito de Mortal Engines, obra literária lançada em 2001, pelo autor Philip Reeve. Imagine este conceito: no futuro do ano 3100, a Terra encontra-se devastada e não é mais divida por territórios e fronteiras. Nesta nova realidade, as cidades são colossais veículos e se movem pelo planeta. Idealizar e concretizar cidades sobre rodas é um dos grandes acertos do longa.

Pode parecer pouco enaltecer o visual de uma superprodução, porém, detalhar com perfeição cada elemento que deseja-se explorar não é um feito tão simples e fácil quanto parece. Por diversas vezes, nos deparamos com efeitos de computador artificiais ou tão apressados que não nos deixam apreciar as horas que foram depositadas pelos especialistas para criá-los. A direção de arte de Máquinas Mortais pode ser comparável às de clássicos como Blade Runner – O Caçador de Androides (1982) e sua sequência (2017). Cada pequeno detalhe ganha vida e tempo suficiente nos é dado para que apreciemos e “viajemos” ao lado dos personagens por este admirável mundo novo.


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Meio caminho está andando quando um longa consegue satisfatoriamente nos emergir num universo – como o da ficção científica. É a magia do cinema nos fazendo voltar a ser criança, e nos lembrando de nossas primeiras experiências acreditando sem qualquer ceticismo no que era apresentado perante nossos olhos. Máquinas Mortais é um filme visual e sem ele, sua credibilidade iria instantaneamente pelo ralo. Exatamente por isso, é preciso apontar que o principal foi conquistado por Jackson, pelos roteiristas Philipa Boyens e Fran Walsh, e pelo diretor de primeira viagem Christian Rivers (técnico do departamento de arte dos filmes de Peter Jackson – precisa falar mais?). Desta forma, o cineasta entrega um mundo palpável, envolvente e muito crível.

Talvez tão arriscado quanto esta trama de ficção steampunk foi a opção dos produtores e da Universal em apostar em rostos desconhecidos para levar esta obra monumental nas costas. Bem, JJ Abrams igualmente fez de Daisy Ridley uma estrela (então, em O Despertar da Força uma ilustre desconhecida). Mas lá tínhamos os personagens originais e a marca muito reconhecível de Star Wars. Aqui, embora os novatos Hera Hilmar, Robert Sheeran e companhia não comprometam o resultado final, seus desempenhos estão longe de marcarem nossa memória com géiseres de carisma (como o conquistado pela intérprete de Rey). Quem mais se aproxima é Jihae, que vive a anarquista com recompensa por sua cabeça, Anna Fang.

Na trama, quando Londres (uma das maiores cidades predadoras do futuro) se aproxima para assimilar diversas cidadelas, a misteriosa Hester Shaw (Hilmar) vê na ação a oportunidade perfeita de se vingar do assassino de sua mãe. Devido a percalços, ela logo se vê ao lado de Tom Natsworthy (Sheehan), um jovem criado na cidade, precisando juntar forças para sobreviver. O ritmo de Máquinas Mortais é acelerado e não dá descanso. A narrativa é recheada de pura adrenalina e o dinamismo das cenas é transposto das telas.

Máquinas Mortais pode ter sido baseado em um livro, mas possui climão de HQ. O longa inclusive arruma tempo para trechos mais emotivos do que teria direito. Este é um blockbuster que se importa e resolve perder tempo para acrescentar elementos humanos (cada vez mais raros hoje em dia) – entre uma tirinha de papel e outra – como, por exemplo, a relação da protagonista com seu pai adotivo: um zumbi robótico implacável. A relação entre os dois e a conclusão de seu arco é um dos pontos altos da produção.

Máquinas Mortais é feito nos pequenos detalhes. Nos adendos e rodapés. Em seu núcleo central, o longa recai em clichês muito esperados e sabidos – no qual o vilão deseja apenas arquitetar seu plano maquiavélico de destruição em massa. E pensar que no começo existia até sátira/crítica à união Europeia e a saída de países como a Inglaterra (no filme, é justamente Londres quem precisa se “alimentar” dos recursos oferecidos por lugares menores – a oferta não chega sem comentários ácidos dos britânicos sobre seus conquistados). Mesmo assim, Máquinas Mortais entrega exatamente o que lhe é pedido: um universo rico e minucioso.

Na era dos super-heróis de quadrinhos e continuações do cinema, no entanto, o destino de Máquinas Mortais pode ter sido selado como obra cult a ser redescoberta.





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