Crítica | Meghan Trainor recicla doo-wop e bubblegum pop com o apático single “Get In Girl”

Meghan Trainor ganhou proeminência mundial após estrear no cenário musical com o hit “All About That Bass”, uma divertida e nostálgica explosão de bubblegum pop e doo-wop que trouxe ares diferentes da inegável dominância do trap e gêneros variados da época. Através de uma envolvente lírica que celebrou o empoderamento corporal e a autoaceitação de maneira ácida e que, como era esperado, atraiu certos comentários que não entenderam a ideia da canção; de qualquer maneira, Trainor se tornou centro dos holofotes, dando origem a uma prolífica carreira que lhe rendeu uma estatueta do Grammy de Artista Revelação e que, como qualquer outra discografia, passou por altos e baixos.

Recentemente tendo se reencontrado com o sucesso comercial através de faixas como “Made You Look” e “Criminals”, Trainor está pronta para embarcar em sua nova era, mantendo-se fiel à estética pastel e retrô explorada em álbuns anteriores à medida que se reintroduz aos fãs. Recebendo considerável escrutínio após uma marcante mudança de imagem, ela anunciou o compilado de originais Toy with Me em 2025, com lançamento para o próximo dia 24 de abril – aproveitando o momento para divulgar o nostálgico lead single “Still Don’t Care”, construído sobre uma estrutura à la anos 1980 e que, de certa maneira, reiterou a predileção da cantora e compositora por um passado não muito distante.

Três meses depois, estamos de volta com mais uma canção promocional inédita: “Get In Girl” foi lançada nas plataformas hoje, 13 de fevereiro, e promoveu não apenas um retorno às raízes da artista, como voltou a delinear histórias de libertação e empoderamento que já vem nos contando há mais de uma década. Ao longo de quase três minutos e meio, é notável como Trainor diverte-se do começo ao fim em território familiar, mas não podemos deixar de perceber uma repetição cansativa de arranjos instrumentais e cadências vocais que, eventualmente, não trazem nada de novo.



Com produção de Mark Schick e Grant Boutin, ambos contribuindo também para a composição ao lado de Trainor, Delacey e Andrew Jackson, o single tem uma estrutura prática que conta com uma multiplicidade vibrante de trompetes, saxofones, bateria e piano, todos modelados para seguir fórmulas engessadas de qualquer musical de época da Broadway – com uma inclinação a títulos como ‘Hairspray’ e ‘Dreamgirls’. À medida que o escopo toma forma, a performer se lança a uma mistura incisiva de doo-wop e bubblegum-pop que recicla investidas conhecidas não só da própria carreira, mas de várias outras faixas (e, nesse quesito, as homenagens cedem a uma emulação sem muita vida e que parece indisposta a se arriscar além do óbvio).

À medida que reafirma o poder e a união femininos em uma narrativa sobre um relacionamento falido sobre um homem que não fez o mínimo para mostrar seu amor à companheira, negligenciando algo que, agora, perdeu para sempre, Trainor volta a usar a celebração do “eu” como força-motriz – o que, em tempos de crise, é algo sempre bem-vindo. Porém, com exceção da temática, é difícil encontrar algum ponto em comum entre esta música e o single anterior, um indicativo não muito interessante para a estrutura do álbum que será lançado em breve.

Lembrando que “Get In Girl” já está disponível nas plataformas digitais.

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Thiago Nolla
Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.