Em ‘Atena’, Mel Lisboa interpreta a personagem titular, uma mulher marcada pelo trauma de ter sido abusada pelo pai quando criança – e que carrega as dores até a sua vida adulta. Exausta com o fato de ela e outras mulheres serem alvos de homens predadores, Atena resolve tomar as rédeas de sua própria vida e transformar-se em uma espécie de justiceira social que ultrapassa as falhas sistêmicas dos oficiais de justiça e dos policiais, garantindo que cada abusador pague pelos crimes cometidos – e deixando sua assinatura ao cravar, na pele de suas vítimas, a frase Estuprador.
Ao ser abordada pelo jornalista investigativo Carlos (Thiago Fragoso), que vem examinando os corpos deixados para trás, ela descobre que seu pai se mudou para Montevidéu, capital do Uruguai, e vê isso como uma oportunidade para enterrar uma história que insiste em assombrá-la, jurando para si mesma que alguma atitude precisa ser tomada antes que ele ataque e, de novo, arruíne a vida de outra pessoa.

A ideia por trás do novo projeto de Caco Souza é interessante e muito pertinente para os dias atuais, ainda mais considerando os altos índices de abusos físico, doméstico e sexual sofrido pelas mulheres (e isso sem levar em conta as taxas de feminicídio no nosso país). Porém, à medida que o breve longa-metragem se desenrola através de seus noventa minutos, percebemos que não há nada de novo a ser visto aqui e que, eventualmente, a ambição estética e criativa dá margem a uma mixórdia sem sentido de frases prontas, personagens estereotipados e um roteiro amador que parece ter sido feito com o uso de inteligência artificial – recorrendo a ocasionalidades inexplicáveis que unem thriller e drama em uma obra esquecível e preguiçosa.
Souza, assumindo a cadeira de diretor, faz um bom trabalho nas primeiras cenas do filme, apoiando-se em uma montagem frenética para fomentar a atmosfera de suspense. Entretanto, após dar as cartas do jogo, o realizador perde-se em meio a tentativas de passos mais largos do que consegue dar, se esquecendo de que o escopo reduzido de uma iteração independente não é motivo para tratar tudo de maneira parcimoniosa; pelo contrário, o fato de se inclinar com força para um vira-latismo cênico que copia, sem quaisquer escrúpulos, os títulos estadunidenses, revela um desleixo tristonho e um vazio artístico que deixa os espectadores irritados e incomodados.

Enquanto a direção falha em nos fisgar e em reiterar o que se foi prometido, o roteiro assinado por Enrico Peccin consegue ser pior: a construção das personagens sequer pode ser encarada como arquetípica, visto que cada um dos arcos carrega consigo uma previsibilidade barata, destituindo os protagonistas e coadjuvante da complexidade necessária para criarmos algum tipo de laço. Se pararmos para analisar, os diálogos provêm de metáforas vencidas e regurgitações de tantas outras produções do gênero, esvaziando uma pauta de importância ímpar para discussão e preferindo abrir espaço para clichês inescapáveis e uma cansativa bola de neve de problemas que apenas cresce antes de nos atropelar. Ao menos Peccin e Souza se esquivam de cenas gráficas demais e levam os espectadores a inferir a partir de cortes secos e uma predileção datada pelo fade-out.
O melhor aspecto do filme é seu elenco: Lisboa se conecta com a delineação de Atena e, navegando entre frases prontas e uma trajetória que, de certa maneira, é quando voltamos a atenção para a sinopse. É notável como a atriz, que tem um currículo sólido ao longo de sua prolífica carreira, tenta ao máximo fornecer o mínimo de profundidade à personagem; porém, conforme lida com o roteiro, ela procura equilibrar uma caracterização à la Femme fatales com os traumas de uma mulher que sabe que precisa fazer justiça com as próprias mãos. Fragoso, mesmo com um tempo de tela bastante reduzido, também nos passa credibilidade como o repórter Carlos – mas é notável como sua “ajuda” é descartada logo antes de chegarmos ao terceiro ato, que o desperdiça por completo. E, sem muita cerimônia, o restante do elenco é ofuscado por completo e transforma-se em um corpo imemorável e sem muito impacto à medida que o enredo toma forma.

‘Atena’ vem de um lugar com boas intenções, mas nenhuma das investidas que promove alcança o resultado desejado. No final das contas, as engrenagens soltas explodem em um misto de frustração e decepção, varrendo para debaixo do tapete o talento inato de um elenco de peso em prol de um produto feito às pressas e que mais corresponde a um trabalho de faculdade do que a uma obra cinematográfica que cumpre com o prometido.
