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Crítica | ‘Memórias de um Caracol’ mergulha no niilismo existencial através de uma marcante narrativa


Ao longo da história, inúmeros filósofos se perguntaram sobre qual o sentido da vida: alguns, respaldados pela teoria do hedonismo, defendem que o objetivo principal da existência do indivíduo no mundo terreno é o prazer, enquanto outros, movidos pela moral e pela ética, afirmam que faz-se necessário seguir regras engessadas para a boa convivência em sociedade e, consequentemente, a pregação do abstrato conceito de “bom”. E, é claro, temos aqueles apoiados na teoria niilista, cuja única defesa é fazer o que se bem entender, visto que a única certeza da vida é a morte – e, após isso, não há mais nada. E o que acontece quando a busca desse sentido é transposta para o cinema?

Ainda que o gênero animado tenha sofrido certa “represália” por teóricos e estudiosos da sétima arte mais tradicionalistas, hoje podemos, felizmente, considerar produções do tipo como obras de arte, dotadas de camadas profundas que ressoam não apenas a um público mais jovem, mas se expandem para inúmeras gerações em níveis diferenciados – e, como subgênero, temos animações adultas que nos convidam a refletir sobre a existência em si, como a impecável ‘Anomalisa’, comandado por ninguém menos que Charlie Kaufman ao lado de Duke Johnson. E, após conquistar inúmeras indicações e prêmios nesta última temporada, está na hora de se emocionar com a angustiante e tocante narrativa de Memórias de um Caracol.



Dirigido por Adam Elliot, o longa-metragem posa como uma pessimista análise da vida, acompanhando a jovem Grace Pudel (Sarah Snook), uma mulher que relembra a árdua jornada que passou quando criança, adolescente e até mesmo adulta – e que a levou a um vórtice de vazio e solidão permeado por compulsões inexplicáveis e uma culpa que a consome dia a dia. Afastada do irmão gêmeo, Gilbert (Kodi Smit-McPhee), após a morte do pai (e sem ao menos conhecer a mãe, visto que ela faleceu ao lhes dar a luz), ela vê se mundo se despedaçar, encontrando conforto e consolo através de uma paixão visceral por caracóis – como se qualquer coisa relacionada a esses animaizinhos conseguisse desassociá-la de uma realidade dura e pessimista.

Porém, pouco a pouco, Grace percebe que está em um beco sem saída, desenvolvendo um transtorno de cleptomania para preencher um vazio impalpável e interior, conversando com o irmão através de cartas – e sofrendo com o fato dele estar confinado em uma casa controlada por uma família psicótica e uma mãe adotiva radicalmente religiosa, Ruth (Magda Szubanski) – e até mesmo entrando em um casamento com alguém que apenas queria controlá-la. Permanecendo fiel à sua personalidade única e empática, ao menos ela cria uma amizade com Pinky (Jacki Weaver), uma ex-dançarina de mesa que navega por um cotidiano monótono com diversão e exaltação.

Elliot, que ganhou destaque mundial com a ótima animação ‘Mary & Max’ há mais de quinze anos, desenvolve um enredo tragicômico que mergulha de cabeça em questões existencialistas e pessimistas, apoiando-se em incursões niilistas e quase aniquiladoras sobre a derradeira verdade do ser humano: a inevitabilidade da solidão e da decepção. Bom, ao menos é o que nos é transposto por quase uma hora e vinte, até nos verter em lágrimas com uma feliz reviravolta que apenas serve como cereja de um complexo e intrincado bolo – e que apreciamos e saboreamos em todos os seus níveis. E, conhecendo a forma como o realizador abre espaço para que suas obras funcionem como um reflexo quase autobiográfico, aceitar o convite para essa crua e íntima jornada é um presente cinemático.

Grace não é só uma representação do próprio diretor, mas um emblema particular de uma persona universal – cuja construção parte da psique humana e de um momento pelo qual todos já passaram (conhecido também como “o fundo do poço”). A protagonista e narradora, tendo passado por tantas decepções e angústias em sua breve vida, emerge como um ícone da letargia e da apatia, como se estivesse cansada demais para lutar e para continuar forte, reclusando-se em sua concha, como os caracóis ao seu lado; em contrapartida, a personalidade de Gilbert a complementa, como se ambos fossem partes separadas de um único indivíduo, trazendo a beleza e a vontade de seguir em frente a alguém que enxerga apenas o nada.

memórias de um caracol

Falar do encanto imagético e artístico do stop-motion parece desnecessário, visto que Elliot mantém-se fiel à conhecida estética de seu longa anterior e dos curtas que encabeçou em sua carreira – pincelando o arco de Grace com tons voltados para um monocromático sombrio que aposta em tons terrosos, reafirmando a claustrofóbica e cíclica cela sem grades em que a protagonista se encontra, reencontrando-se com um brilho a mais conforme suas esperanças reacendem. Gerald Thompson, responsável pela fotografia, aposta fichas em uma simetria exagerada para garantir a falsa sensação de estabilidade e equilíbrio que Grace acredita ter encontrado, vertendo-se em subsequentes planos tortuosos para descontruir as expectativas de bonança – e funcionando com maestria invejável.

Memórias de um Caracol chega ao circuito brasileiro meses depois de ter conquistado o público e a crítica no mercado internacional, sagrando-se não apenas uma das melhores animações do ano, mas despontando como uma obra-prima audiovisual e um dos títulos mais belos e existenciais até agora.

Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.
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