Crítica | ‘Meu Filho é um Musical’ homenageia Paulo Gustavo em um extravagante e pungente espetáculo de três horas

aulo Gustavo se tornou um dos maiores nomes da comédia nacional e, através de sua carreira, levou alegria e risadas para milhares de famílias ao redor do país com produções como a franquia ‘Minha Mãe é uma Peça’ e a sitcom ‘Vai Que Cola’. Em 2021, no auge da pandemia de COVID-19, Gustavo infelizmente veio a falecer em virtude da negligência do governo do ex-presidente Jair Bolsonaro – mas seu impacto no cenário cômico permanece mais vivo do que nunca, seja com constantes homenagens de seus amigos mais próximos, como Mônica Martelli e Samantha Schmütz, seja com a lei de cultura que leva seu nome. E, agora, depois de uma aclamada temporada no Rio de Janeiro, a peça ‘Meu Filho é um Musical’ chega aos palcos da capital paulista para emocionar a legião de fãs de um dos artistas mais populares do século.

O espetáculo, idealizado por Renata Borges e Déa Lúcia, esta também responsável pela produção ao lado da Touché Entretenimento, explora a vida e o legado do comediante, que ganham forma em uma superprodução que transforma sua história pessoal e profissional em um musical original de enorme escala que nos leva a um vibrante e colorido cosmos fora do espaço e do tempo, prestando homenagens às icônicas Musas da mitologia grega e até mesmo à lendária Beyoncé, o maior ídolo artístico do saudoso performer que inclusive lhe prestou tributo após sua morte.

‘Meu Filho é um Musical’ concretiza um desejo manifestado pelo artista e que, agora, é conduzido de maneira cândida e muito emocionante pela própria família, desenrolando-se em uma construção cênica que conecta memória afetiva e linguagem contemporânea. Não é surpresa que o desembarque da peça em São Paulo tenha coincidido com o vigésimo aniversário de ‘Minha Mãe é uma Peça’, monólogo que deu origem à trilogia cinematográfica focada na irreverente e sem papas na língua Dona Hermínia – um dos maiores símbolos da comédia contemporânea nacional.

Pierre Baitelli assumiu as rédeas da apresentação a que o CinePOP foi convidado, reunindo cada um dos elementos que imortalizaram a excêntrica e apaixonante figura de Gustavo no cenário do entretenimento, navegando, principalmente, pela transição entre a adolescência e a vida adulta, bem como pelo desejo inescapável de se encontrar. Expulso do colégio, rendendo-se às festas noturnas, viajando para os Estados Unidos e ingressando em diversos cursos que nunca conseguiu terminar, o nosso protagonista levou um tempo considerável até perceber que nasceu para os palcos – ainda mais alimentado pelas noites em que a mãe, Déa Lúcia (aqui encarnada com maestria por Stella Maria Rodrigues), soltava a voz em apresentações fantásticas e que reafirmavam o apreço do jovem pela arte.

Estendendo-se por épicas três horas de duração, o musical em momento algum perde força, concentrando esforços em cenários móveis que garantem dinamismo à história e em uma inesperada dosagem entre comédia e drama que nos leva a uma derradeira experiência e a uma reflexão sobre e efemeridade do tempo e qual o legado que nós queremos deixar ainda em vida. Não é surpresa que o projeto tenha sido encabeçado por Ju Amaral e por João Fonseca, nomes com uma conexão indelével com Gustavo e que o trazem para os palcos de maneira singela e garantindo uma exploração dos altos e baixos de uma personalidade incomparável – seja sobre as dores do primeiro amor, seu entendimento como homem gay, sua extravagante e comandante presença artística e suas frustrações profissionais e pessoais.

Baitelli faz um trabalho primoroso, resgatando cada um dos elementos que sagraram a fama do artista e o colocaram no mesmo patamar de lendários comediantes – nos arrancando gargalhadas em meio às tresloucadas empreitadas em que mergulha sem pensar duas vezes, e nos vertendo em lágrimas quando o ato de encerramento começa a se desenrolar e o trágico fim do artista se aproxima em uma agourenta e impactante sequência, garantindo uma performance memorável do ator e de Rodrigues, que rouba os holofotes a todo momento que aparece.

Porém, a dupla não está sozinha nessa emocionante e honesta jornada, sendo acompanhados por um time de atores e atrizes de talento nato, cada qual com seu momento de brilhar – desde Milena Machado encarnando Juju, a descompensada irmã de Paulo Gustavo que sempre esteve ao lado dele, em meio a brigas e a desentendimentos; Thiago Voltolini em uma interpretação fenomenal de outro famoso comediante, Fábio Porchat; Josie Antello como a exagerada Iesa, irmã de Déa Lúcia; Lucas Colombo como Thales, nutrindo de uma química primorosa ao lado de Baitelli; e muitos outros.

‘Meu Filho é um Musical’ é um vibrante, colorido e pungente espetáculo que celebra o impacto de Paulo Gustavo de forma honrosa e garantindo que, em momento algum, o público se sinta deixado de fora. Apostando em uma nostalgia gritante e apoiando-se em performances de tirar o fôlego, a produção, de fato, irrompe como uma das melhores do ano e nos satisfaz em sua completude mesmo depois de horas dos aplausos explodirem no teatro.

Meu Filho é um Musical

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Thiago Nolla
Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.