Crítica | Midway: Batalha em Alto-Mar – Guerra e patriotismo americano à moda antiga

Crítica | Midway: Batalha em Alto-Mar – Guerra e patriotismo americano à moda antiga

Nota:

Independence Day na 2ª Guerra

Mudam as décadas e o cinema, mas o patriotismo norte-americano permanece inabalável. Bom! O excesso de amor por sua nação não deve ser algo negativo, mesmo que não concordemos com os líderes vigentes e seus rumos para o país. E certos valores serem enaltecidos ao olharmos para o passado, faz bem. Por outro lado, um filme que se segura apenas nisso através de clichês do gênero e momentos para lá de piegas consegue subverter o sentimento em uma coisa ruim.

O mais curioso de tudo é ver o alemão Roland Emmerich ser cimentado como garoto propaganda dos filmes americanos mais patrióticos dos últimos anos. Em seu currículo se encontram produções como Independence Day (1996), O Patriota (2000) e O Ataque (2013), por exemplo. Agora chega aos cinemas brasileiros este Midway, que reconta uma das batalhas mais marcantes da Segunda Guerra Mundial. Seria uma forma de Emmerich limpar sua consciência pelos feitos de seu país no passado?

Esse momento histórico crucial já havia sido tema de um longa grandioso de guerra, lançado em meio ao fenômeno do cinema catástrofe da década de 1970. Intitulado A Batalha de Midway (1976), a superprodução contava com nomes como Charlton Heston, Henry Fonda, James Coburn, Glenn Ford, Robert Mitchum e Hal Holbrook no elenco, dando credibilidade e prestígio ao projeto. Neste quesito o novo Midway sai perdendo, ao apresentar a nata do time B de Hollywood frente à produção. O nome de maior peso aqui é mesmo o do cineasta Emmerich.

A presença do diretor se faz notar, já que no filme o maior chamariz são as eletrizantes batalhas aéreas. As cenas de ação, efeitos especiais e todos os quesitos técnicos não decepcionam, prometendo manter na beira da poltrona os aficionados por este tipo de cinema. Este, porém, não é um filme de guerra realista, cru e visceral como, digamos, O Resgate do Soldado Ryan (1998), ou sequer um que traga ponderações sobre os horrores da guerra. Midway é megalomaníaco, um blockbuster repleto de adrenalina, com uma roupagem de obra histórica – justamente por isso, pela segunda semana consecutiva se encontra no topo das bilheterias nos EUA.

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Não me leve a mal, os atores aqui dão tudo de si para transparecer veracidade, mas este é um filme cujo principal objetivo é reforçar sentimentos como honra, justiça, lealdade e dignidade. E o faz com muito sentimentalismo. Vale lembrar que a 2ª Guerra acabou com a entrada dos EUA no “jogo”, e que a Europa se via praticamente toda tomada pelas forças nazistas de Hitler. Então fica claro qual era o lado bom e o ruim do conflito. Os heróis e os vilões. Aqui, no entanto, o foco é no confronto com a potência do Japão, aliada dos alemães.

Sem a menor cerimônia, no filme de Emmerich os soldados americanos se tornam heróis dignos do cinema, realizando façanhas impossíveis – como pilotar aviões em meio a uma saraivada de balas dos mais pesados calibres, sem que qualquer uma delas (em meio a uma chuva) seja capaz de acertar a aeronave dos protagonistas; ou mostrar que não são apenas os japoneses que possuem audácia suicida, com pilotos quase tocando o chão em suas manobras para jogar bombas mais de perto.

Podemos dizer também que o texto e a direção de Emmerich transformam os personagens em estereótipos caricatos. Temos o superior durão (Dennis Quaid), o burocrata que tenta prevenir o pior (Patrick Wilson), o responsável pelas decisões que não queria estar ali (Woody Harrelson), o piloto famoso (Aaron Eckhart) e a esposa preocupada (Mandy Moore), entre outros. O protagonista é o caubói que desafia a morte, interpretado por Ed Skrein. Ele é o “Top Gun” da década de 1940.

Midway segue a cartilha dos filmes de Roland Emmerich, onde se privilegia mais a ação e a parte técnica do que outros fatores como profundidade de personagens e seus dramas. O cineasta perpassa por alguns momentos chave do conflito, mesmo que esqueça de dar continuidade à parte deles – como o trecho envolvendo a queda de Aaron Eckhart na China (o personagem é abandonado, só voltando a aparecer num daqueles recortes ao final, quando nos mostram  o que tais figuras fizeram até sua morte – durante os créditos).

Apesar de seus constantes exageros e mão pesada na falta de sutileza, Roland Emmerich entrega com Midway um de seus melhores filmes nos últimos anos. O longa dá seu recado, mesmo que cambaleando um pouco no percurso, e traz um ou outro insight interessante sobre a época e o que foi ser um soldado americano no período. Midway é um filme de guerra recomendado para os que não gostam de filmes de guerra. Não sei se isso chega a ser um elogio para a produção, mas pode servir como porta de entrada para os não escolados no gênero. De resto, segue de perto, perpassando todos os itens de exemplares deste tipo de cinema, sem grandes acréscimos ou inovações – ao contrário de expoentes dos últimos anos como Até o Último Homem (2016) e Dunkirk (2017), longas que focavam na humanidade por trás do terror e insanidade da guerra. Já Midway é sua espetacularização.