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Crítica | Mike Flanagan explora a efemeridade da vida e a certeza da morte no potente drama ‘A Vida de Chuck’


Mike Flanagan tornou-se um dos realizadores mais populares e prestigiados do cenário contemporâneo do entretenimento através de uma série de projetos que não apenas revitalizaram o gênero do terror e do suspense, como remodelaram convencionalismos existentes em pequenas obras de arte. Desde o ótimo ‘Hush: A Morte Ouve’, passando pela espetacular minissérie ‘A Maldição da Residência Hill’ e pelo enervante thriller Jogo Perigoso, e culminando com a fabulosa ‘A Queda da Casa de Usher’, Flanagan mostrou e continua mostrando ter as habilidades necessárias para fazer de seu incrível storytelling um arauto de celebração artística e audiovisual.

Agora, o diretor retorna para a sétima arte com a ambiciosa adaptação de um dos romances mais elogiados do mestre Stephen King: A Vida de Chuck. Dividindo o filme em três partes que são contadas em cronologia reversa, a poderosa trama é centrada em Charles “Chuck” Krantz (interpretado pelo sempre incrível Tom Hiddleston quando adulto e pelos jovens Cody Flanagan, Benjamin Pajak e Jacob Tremblay nas várias fases de sua jornada) e emerge como uma cândida exploração sobre a efemeridade da existência e os pequenos prazeres que se escondem em meio ao frenesi incontrolável que chamamos de vida. Afastando-se das incursões do terror e do suspense exploradas em suas outras obras, Flanagan abraça o drama de maneira sólida para construir um diálogo com os espectadores que, em sua maior parte, funciona de maneira aprazível e tocante – e reitera seu importante status no show business.



A primeira parte do longa é a que mais nos chama atenção e delineia-se como um ato de abertura que nos tira o fôlego, tanto pelas hábeis mãos que conduzem a câmera, quanto pelo belíssimo espetáculo visual que singra entre a realidade e a fábula. Intitulado “Thanks, Chuck”, esse bloco nos apresenta ao professor Marty Anderson (Chiwetel Ejiofor) e à sua ex-esposa Felicia Gordon (Karen Gillan), exaurida por seu constante trabalho como enfermeira. Os dois percebem que algo errado vem se espalhando como uma peste pelo planeta, desde consecutivos desastres naturais até a queda geral dos aparelhos eletrônicos e da internet, e o desaparecimento inexplicável de várias pessoas. Cientes de que o fim do mundo se aproxima a passos rápidos, eles tentam fazer o máximo para manter a normalidade, rendendo-se à letargia de um “apocalipse” incontrolável que prenuncia o desfecho de tudo que conhecem.

Guiado pelas irretocáveis performances de Ejiofor e Gillan, que nutrem de uma química apaixonante um com o outro (mesmo que estejam apenas falando ao telefone), o ato de abertura é arquitetado com uma paixão cinemática infindável: cada engrenagem se encaixa com perfeição em uma mixórdia explosiva e inquietante de melodrama, suspense e filosofia. O verborrágico roteiro parte da interessante premissa do “calendário cósmico” para contar os minutos finais da vida de Chuck – cujo rosto inexplicavelmente aparece em inúmeros outdoors da cidade onde Marty e Felicia moram, agradecendo pelos “39 anos de trabalho” que o contador prestou; a fotografia rende-se a uma crescente intimidade que entra em conflito com o épico escopo destrutivo que se apodera da Terra, mergulhando na melancolia derradeira dos tons de azul que, em poucos minutos, dominam as telonas.

A verdade é que o fim abrupto do universo dialoga com os dois capítulos subsequentes do filme. Em “I Contain Multitudes”, que funciona como o primeiro ato da narrativa e o bloco de encerramento do projeto, somos apresentados a um jovem Chuck que, quando criança, passou pelo trauma de perder os pais. Felizmente, ele sempre contou com o apoio dos avós, Sarah (Mia Sara) e Albie (Mark Hamill), desenvolvendo uma aptidão nata tanto pela dança – que o alcança de maneira inesperada quando adulto e cruzando caminho com a jovem Janice (Annalise Basso) e a baterista Taylor (Taylor Gordon) – quanto pela matemática, o que o ajudou a enxergar o mundo com outros olhos. Movido pela arte em sua multiplicidade expressiva, Chuck é emblema de todas as angústias, medos e receios que nos impedem de sermos quem somos e de buscar uma felicidade que, em meio a consideráveis obstáculos, soa intangível.

Beirando os quarenta anos, nosso protagonista vê a vida se esvaindo, rendendo-se a uma memorabília poética que finca os dentes no clássico poema “Song of Myself”, de Walt Whitman. À medida que Chuck se despede das multidões que compuseram seu cotidiano, o universo existente em seu subconsciente dá adeus, apagando-se aos poucos à medida que o último sopro é dado. É claro que a conclusão-início da narrativa pode soar um pouco apressada quando justaposta às outras investidas do projeto, mas o resultado é forte o suficiente para que os erros sejam ofuscados e varridos para debaixo do tapete – e que nos convidem a refletir sobre o nosso tempo na Terra.

Em matéria de análises sobre a vida e a morte, Flanagan conseguiu esquadrinhar um pouco mais a fundo objetos abstratos em produções anteriores, como a impactante e solene ‘Missa da Meia-Noite’, de 2021. Porém, o realizador permanece no topo de seu implacável jogo ao dizer, em meio às entrelinhas que se desprendem por esse épico dramático, que a certeza da morte é o que nos faz viver cada dia como se fosse o último – e essa mensagem é o que resume a beleza de A Vida de Chuck.

Lembrando que o filme chega aos cinemas no dia 4 de setembro.

Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.
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