Se há um gênero que parece ter se tornado predileção da Netflix desde que a gigante do streaming começou a apostar em produções originais, este gênero é o das comédias românticas. Firmando parceria com atrizes e atores contratados essencialmente para narrativas açucaradas e totalmente despretensiosas, incluindo Sofia Carson, Lindsay Lohan e Vanessa Hudgens, a plataforma revitalizou a popularidade das rom-coms – mesmo que alguns projetos tenham se rendido a fórmulas repetitivas e cansativas, apoiando-se no carisma e na química de seu elenco. Agora, chegou a vez de Miranda Cosgrove se tornar a próxima a exercer essa função ao, após estrelar ‘A Mãe da Noiva’ ao lado de Brooke Shields, retornar com ‘A Paris Errada’.
O longa-metragem chegou hoje, 12 de setembro, ao catálogo da Netflix e conta com todos os tropos que conhecemos: aqui, Cosgrove interpreta Dawn, uma jovem sonhadora que perdeu os pais em um acidente de carro e que foi criada pela avó, Birdie (Frances Fisher), ao lado das irmãs mais novas. Dawn é uma artista nata cujo sonho de estudar na prestigiada Academia de Artes de Paris se realiza quando ela é aceita pelo corpo administrativo. Porém, o auxílio financeiro lhe é negado e ela não sabe o que fazer para conseguir o dinheiro para as despesas de viagem e para a hospedagem – até encontrar a oportunidade num reality show chamado The Honeypot (uma clara emulação do ‘The Bachelor’ e derivados), cuja próxima temporada será na Cidade-Luz e cuja mera participação lhe garantirá uma sólida quantia.

É claro que as coisas não saem como o planejado: a verdade é que os produtores do programa escalaram as participantes em uma reviravolta inesperada, levando-as para a cidade de Paris, no Texas, Estados Unidos – a apenas uma hora da cidade natal de Dawn. E isso não é tudo: ao chegar à casa onde ficará hospedada durante as gravações, ela descobre que o cobiçado “solteirão” é ninguém menos que Trey McAllen III (Pierson Fodé), um atraente e charmoso rapaz que conheceu num bar local e que, na verdade, é um abastado herdeiro. A princípio tentando convencê-lo a ajudá-la, os dois se aproximam mais do que imaginavam e começam a ter sentimentos um pelo outro – colocando Dawn em uma posição complicada, obrigada a tomar uma decisão impossível.
Todo o espectro do filme é familiar: desde o segredo mantido pela protagonista até o inesperado laço que constrói com seu par romântico, cada aspecto é emprestado de incontáveis produções similares que saem nos cinemas e nos streamings semana após semana. A diferença reside na interessante premissa, que coloca o futuro casal em um reality e à mercê de forças que não podem controlar, e no fato de que a construção enemies-to-friends é deixada de lado para um amor instantâneo e quase fabulesco, alcançando sucesso por seu caráter fabulesco e escapista. É óbvio que o andamento da narrativa é previsível do começo ao fim, mas sabemos da jornada a que somos convidados a assistir desde o momento em que apertamos o play.

Cosgrove faz um ótimo trabalho como Dawn, desejando trazer um pouco mais de profundidade a uma construção de personagem que, mesmo não estereotipada, parte de princípios arquetípicos que criticam esses “tipos sociais” – divertidamente colocados nas outras participantes do reality, como a sonhadora Cindy (Madeleine Arthur), a intensa Heather (Veronica Long) e a invejosa e vilanesca Alexis (Madison Pettis). Nutrindo de uma química inegável com Fodé, algo que emerge como o aspecto mais bem pensado do longa, Cosgrove diverte-se como Dawn e deixa espaço para que outros nomes brilhem sob os holofotes, como Yvonne Orji, que interpreta a cocriadora do programa, Rachel, e uma quieta defensora da nossa “heroína”; Christin Park, que encarna Jasmine, uma mulher que não necessariamente quer se apaixonar, mas quer se jogar de cabeça na vida e na possibilidade do amor; e Torrance Coombs, que vive o impetuoso e ambicioso Carl, coprodutor do reality.
Mais uma vez, a Netflix escala as mãos de Janeen Damian para comandar a rom-com – e, assim como suas incursões anteriores, não há nada de novo a ser visto aqui com exceção do puro comprometimento com a despretensão. Já tendo encabeçado ‘Pedido Irlandês’ e ‘Uma Quedinha de Natal’, Damian repete a estética onírica e idílica de cenários estonteantes, levando-nos para o interior dos Estados Unidos e banhando-nos com cores vibrantes e quentes, que ficam cada vez mais fortes à medida que Dawn e Trey se aproximam. Movimentando-se entre o intimismo do campo-contracampo e o panfletarismo de enquadramentos abertos e vultuosos, a diretora sabe o que está fazendo e tem plena ciência de que não está reinventando a roda.

Como já era de se esperar, ‘A Paris Errada’ é uma inofensiva comédia romântica que sabe de seus próprios limites e que, em momento algum, procura se arriscar com tentativas exageradas e presumidas – não que isso seja um problema, visto que o resultado é aprazível o suficiente para nos emocionarmos com o final, ainda que possamos prevê-lo desde os primeiros segundos.
