Crítica | ‘Mudbound: Lágrimas Sobre o Mississippi’ coloca a Netflix no hall dos indicados ao Oscar

Crítica | ‘Mudbound: Lágrimas Sobre o Mississippi’ coloca a Netflix no hall dos indicados ao Oscar

Nota:

O trabalho árduo do campo que caleja as mãos e franze a testa com o suor de uma face enlameada. Em uma imensidão a perder de vista no horizonte, a temática do racismo é tratada pelo vínculo da terra. Tal como o ser humano surgiu do próprio barro, nele vidas são construídas, famílias são alimentadas, plantações inundadas e vidas dizimadas. A nova produção da Netflix, ‘Mudbound: Lágrima Sobre o Mississipi’, devolve o homem à esta terra, em um conto onde o branco e o negro se tornam um só pela guerra, à medida que também são completamente apartados como seres desconhecidos pelo ódio de uma supremacia que jamais existiu e sequer deveria ter sido imaginada e praticada.

De uma sensibilidade enorme originada por uma escritora branca, Hillary Jordan, e redesenhada para as telas pelas mãos de alguém que já viveu o racismo de perto, Dee Rees, o drama conta aquela história do preconceito pela ótica de duas famílias distintas. Voltando às raízes de um dos estados com alguns dos casos mais severos de intolerância racial, o Mississipi, acompanhamos de perto a luta de dois jovens unidos pela Segunda Guerra Mundial, que tentam se adaptar à vida pós-combate, com suas dolorosas memórias e o peso descomunal de um ódio racial impregnado na cultura local.

História verídica e ficção se encontram em uma trama que poderia ter sido a narrativa de qualquer negro norte-americano tanto no passado como em diante. E de maneira simbólica, testemunhamos uma das mais belas produções originais da Netflix, que entende o compromisso social de uma obra dessa natureza e não se limita, ao mostrar a violência gráfica que a intolerância é capaz de gerar. Através de personagens bem caracterizados, descobrimos o vínculo com a terra que cada uma dessas figuras nutre, que expressam sua dureza, dor, solidão e até mesmo compaixão em olhares e expressões corporais riquíssimas.



E ainda que a história de ‘Mudbound’ pareça simples demais, sua complexidade se encontra na entrelinhas, nos versículos bíblicos recitados pelo pai, agricultor e também pastor Hap Jackson (Rob Morgan), na sua fala lenta diante de textos escritos, na poderosíssima atuação de Mary J. Blige, cuja voz conhecemos bem. Cercados por uma fotografia hipnotizante, Dee Rees contrapõe o belo entardecer e amanhecer em campo aberto com a solidão de uma vida desligada do meio urbano - abandonada em uma terra “esquecida” que sofre para dar frutos sadios.

A improdutividade do lamaçal arado do drama funciona como um simbolismo para as almas preconceituosas, que tentam “colocar o negro em seu lugar”. E assim como a mente reluta em olhar com igualdade para o outro, a terra insiste em não produzir. Sem raízes sadias que possam florescer, nem homem e nem o campo se desenvolvem. Subsistem, até que uma mão mais forte encerre o ciclo da violência com mais violência. A metáfora na construção da trama também nos envolve por sua pureza, ao tratar do amor mediante o ódio. Ecoando os ensinamentos futuros do pastor Martin Luther King, a narrativa consegue manter o tom esperançoso em um drama profundo, que inquieta aquele que entende que a única distinção entre um e outro é o caráter que cada qual carrega.

Com uma direção emocional que centraliza o desenrolar dos fatos a partir das ações e reações dos personagens, ‘Mudbound: Lágrimas Sobre o Mississipi’ é um drama poderoso da Netflix, digno de suas quatro indicações ao Oscar, que sabe explorar seus personagens de maneira significativa e natural, construindo um conto inspirador, que mesmo mediante a dor da injustiça consegue enxergar aquele brilhante raio de sol de um novo amanhacer. Ainda que os campos permaneçam enlameados, como nos dias de hoje.





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