Seguindo o sucesso magistral de Ray of Light, Madonna estava pronta para embarcar em sua mais nova jornada – abrindo o novo século com o divertido e dissonante Music. Resgatando o costumeiro pop de suas investidas anteriores e acrescentando a ele elementos do house, da electro-music (que ajudara a colocar na indústria mainstream dois anos antes) e até mesmo do new wave, a lendária cantora e compositora aproveitava para retomar a parceria com William Orbit e chamando, pela primeira vez, o icônico produtor francês Mirwais Ahmadzaï, Madonna desejava voltar para as pistas de dança com força e com um som diferente do bubblegum adolescente que dominava as paradas de todo o mundo.

Mais de uma vez, a performer provou estar sempre atenta ao que estava acontecendo no cenário musical do restante do planeta, buscando sempre se afastar do óbvio ou ao menos trazer de volta incursões já esquecidas pela constante mudança da indústria fonográfica. Em 2000, Madonna enfrentava um novo problema: a dominação do R&B. É claro que alguns anos antes ela já havia explorado as temáticas e as sonoridades do gênero em questão com Bedtime Stories, mas agora estava na hora da contemporaneidade abraçar de ver essas novas inflexões. Music veio como uma resposta para si mesma e ganhou vida como um projeto de bastante apreço pela artista, ainda mais por não parecer com absolutamente nada do que ela havia apresentado no passado.


No geral, seu oitavo álbum de estúdio é competente o bastante para nos manter entretidos, seja pela forte presença dos sintetizadores, dos drills e do proposital autotune – que seria reavido diversas vezes nos anos seguintes. Entretanto, intrigante (e um tanto quanto frustrante) é o seu resultado final: assemelhando-se a uma gigantesca colcha de retalhos, Madonna exibe estampas instrumentais diversas e um apreço pela ressonância explosiva que nunca, de fato, encontra um único caminho para seguir. Por vezes, essa ousadia deliberada funciona, como podemos ver na faixa-título; em outras iterações, como “Runaway Lover”, o experimentalismo fala tão alto que chega a ser difícil encontrar qualquer indício de linha ou coesão criativas. De qualquer forma, é necessário dar os créditos necessários para o atrevimento com o qual o CD é gerido – afinal, render-se às mudanças, principalmente tão fortes quanto essas, nunca é uma tarefa fácil.

Enquanto a presença de Orbit é presença com imediatismo em diversas tracks, Ahmadzaï cai uma luva para a estética que Madonna buscava. A rainha do pop é embebida nos toques sintéticos do post-punk e do electro-punk e transformada em uma robótica entidade cuja missão na terra é levar seus fãs para um mundo – em algo que se correlaciona, de certa maneira, com a PC music que artistas como Charli XCX e A.G. Cook utilizariam. Da mesma forma que deixa de levar para esses conceitos apocalípticos (no melhor sentido da palavra, diga-se de passagem), o produtor não deixa de prestar atenção à visão que a lead singer já tinha em mente: Ahmadzaï estende suas ramificações para uma espécie de electro-country que faz um ótimo uso do violão e do baixo em “I Deserve It”, e do electro-rock retumbante de “Amazing”.

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De certa maneira, Madonna volta a seguir sua premissa de “fazer o que bem entende” – afinal, isso funcionou com estabilidade surpreendente em sua já consolidada carreira. Certas delineações parecem fora do tom a que se desejava alcançar, como se vários fragmentos independentes entre si se misturassem em conflito bélico e recheado de vibrantes elementos; porém, quando a cautela impera, a performer cria mágica – como também já fizera inúmeras vezes. “Don’t Tell Me”, mais do que o lead single homônimo, é a representação máxima daquilo que se esperava de uma A-list: temos a perfeita fusão entre o trip-hop e o country, cujos brilhantes adornos são acompanhados de uma envolvente guitarra e de um flerte tanto com o folk e o dance. Como se não bastasse, Madonna traz os sólidos vocais de Ray of Light para melismas aplaudíveis que precedem e sucedem o refrão.

Ela volta a fazer o mesmo com a sequencial “What It Feels Like a Girl”, provavelmente uma das melhores músicas de sua carreira. Acompanhado da surda presença de sintetizadores de uma bateria que relembra o onirismo de True Blue e que até busca algumas referências do final dos anos 1990, a sinestésica semibalada é temperada com os acordes acústicos do guitarrista David Torn. Em outra perspectiva, certos empirismos não exploram o potencial que cultivam nas primeiras progressões, como “Paradise (Not For Me)” e “Gone”, ou falham drasticamente por tentarem ser mais do que pretendem (“Nobody’s Perfect”, que seria trazida para 2019 como complemento artístico de diversas faixas de Madame X).


Chegando ao fim com uma esquecível e sem vida rendição do clássico “American Pie”, Music pode não chegar aos pés dos últimos álbuns lançados por Madonna, mas é bastante aprazível quando os segundos finais terminam. E, mesmo que com seus deslizes, é inegável dizer que vários artistas revisitaram esse pastiche fonográfico para buscarem suas próprias identidades – de forma subversiva ou mimética.

Nota por faixa:

  • Music – 4/5
  • Impressive Instant – 3,5/5
  • Runaway Lover – 2,5/5
  • I Deserve It – 4,5/5
  • Amazing – 5/5
  • Nobody’s Perfect – 2/5
  • Don’t Tell Me – 5/5
  • What It Feels Like for a Girl – 5/5
  • Paradise (Not For Me) – 3/5
  • Gone – 3,5/5
  • American Pie – 1,5/5
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