Crítica Netflix | El Camino: A redenção de Jesse Pinkman em um filme que honra sua jornada

Crítica Netflix | El Camino: A redenção de Jesse Pinkman em um filme que honra sua jornada

Nota:


Breaking Bad é uma daquelas raridades da televisão que soube exatamente qual era o seu timing e ritmo ideais. Como uma produção que cresceu no gosto da audiência com o passar de suas temporadas, a série estreou timidamente na emissora AMC e trazia o “pai do Malcolm“, Bryan Cranston, como um protagonista de carisma peculiar, em uma narrativa que rapidamente escalonou de maneira bem unapologetic e agressiva. E mesmo sabendo que sua trama poderia, facilmente, seguir por mais uns três anos com tranquilidade, optou por cortar na carne, encerrando sua trajetória na quinta temporada. Em seu auge, o produtor Vince Gilligan se despedia dos fãs, fazendo da jornada de sobrevivência de um doente homem apático e comum um relato genuíno de como o poder, o dinheiro e o ego podem contaminar tudo e todos ao redor. E as mazelas, destroços, estilhaços e cicatrizes abertas que ficam formam o enredo do filme sequência da série, El Camino.

Entre tantas perdas, Jesse Pinkman (Aaron Paul) – um viciado em drogas que inesperadamente se transforma em um fabricante de metanfetamina ao lado de Walter White (Cranston) -, se viu obrigado a conviver com as piores escolhas que seus vícios lhe trouxeram, bem como com aquelas às quais foi submetido em meio à chantagens emocionais, pressões abusivas e ao tóxico relacionamento quase paterno desenvolvido com o seu professor de química, diagnosticado com um câncer em estágio avançado. De mente frágil, ele passou sua história sendo manipulado por Heisenberg, o alter ego de White. E se livrar de toda a tortuosa bagagem psicológica que os anos acumularam é uma tarefa mais dolorosa do que simplesmente deixar o passado para trás. A fim de se redescobrir por conta própria, ele terá que adotar alguns dos velhos hábitos de seu comparsa, eliminando seus rastros para então construir um novo caminho. Em El Camino, redenção é a palavra de ordem na vida de um homem que cansou de apenas sobreviver a trancos e barrancos, mas que ainda sofre com as amarras que lhe custaram sua sanidade mental.

O longa, dirigido por Vince Gilligan é como um passeio às memórias que os primeiros anos da série trouxeram aos seus fãs. Lindamente dirigido, como todos os episódios em que ele assumia essa função, a produção é como um especial de Natal antecipado, um deleite sem precedentes para aqueles que, mesmo após seis anos, continuam impactados com o brilhante final de Breaking Bad. E como se o tempo não tivesse passado e nenhum de nós envelhecido, El Camino resgata a narrativa de seu ponto final, foge das explicações desnecessárias e se apresenta como um presente a um genuíno apaixonado pelo original. Retomando a trama a partir dos frangalhos que restaram de Pinkman, o filme de duas horas de duração traz o personagem em sua mais completa autenticidade. Novamente, Aaron Paul nos lembra porque suas três vitórias ao Emmy Awards de Melhor Ator Coadjuvante são tão dignas, entregando uma atuação extasiante e envolvente, que revela a fragilidade e digladiante frieza em seus olhos, após todas as experiências traumáticas vividas em sua jornada em BB.

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Esse processo de redenção é permeado por rostos familiares acalentadores. Dos pais do protagonista aos seus melhores amigos, testemunhamos as figuras mais marcantes dos cinco anos da série contemplarem o trajeto de redescoberta de Pinkman, um a um deixando sua breve mensagem, como nos tempos de outrora. De maneira simbólica, Gilligan faz realmente uma homenagem à série que ele mesmo deu vida, honrando boa parte daqueles que ajudaram a tornar Breaking Bad o sucesso atemporal que é. E com essa trajetória, El Camino se transforma em uma experiência profundamente catártica, dentro e fora das telas, servindo como um afago para Pinkman continuar tentando sobreviver, bem como para o público, que supre a saudade sentida da forma mais sublime possível. Anestésica, a produção aplaca a tristeza de não mais termos BB semanalmente, à medida é uma experiência sinestésica por si só, nos levando novamente à mesma montanha russa emocional que Pinkman sempre foi.

E como de costume, como se semana passada um episódio anterior tivesse sido exibido, torcemos para que Pinkman encontre suas respostas. E aqui, deixando o seu El Camino para trás, em busca de um genuíno novo caminho sem qualquer dos resquícios da sua vida passada, o protagonista traça sua própria rota pela primeira vez ao longo de toda sua narrativa. Entre explosões e conflitos sangrentos, ele supera a si mesmo, tem seus momentos de epifania para despedir-se do que um dia já foi real e nos faz marejar os olhos diante de tamanha experiência cinematográfica. Com um roteiro belíssimo, que honra os melhores episódios de Breaking Bad, El Camino é a promessa de que, mesmo depois de seu fim, uma série de TV bem produzida sempre consegue ficar ainda melhor.



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