InícioCríticasCrítica | Netflix joga seguro com o inofensivo suspense alemão 'Brick'

Crítica | Netflix joga seguro com o inofensivo suspense alemão ‘Brick’


Narrativas sobre conspirações bélicas e políticas já receberam os mais diversos tratamentos para o cinema e para a televisão, fundindo-se com diversos estilos – como drama, comédia e suspense. Apenas nos últimos anos, esse gênero foi abraçado com força pela Netflix, dando origem a títulos como ‘O Mundo Depois de Nós’, estrelado por Julia Roberts e Mahershala Ali, e a recente minissérie ‘Dia Zero’, que trouxe Robert De Niro às telinhas. Agora, somos convidados a uma história similar com o original alemão Brick, que chegou à plataforma de streaming no último dia 10 de julho – e nos convida a uma viagem insana.

A trama é centrada no casal formado por Tim (Matthias Schweighöfer) e Olivia (Ruby O. Fee), que estão passando por problemas maritais após um trágico aborto espontâneo. Tim se jogou de cabeça no trabalho, passando horas a fio desenvolvendo um jogo de computador como modo de escape da realidade; em contrapartida, Olivia se sente negligenciada, sequer podendo mencionar o trauma pelo qual passaram juntos e percebendo que foi abandonada, ainda que não diretamente. Decidindo sair de casa, os dois têm uma última briga antes de romperem os laços do casamento – mas as coisas mudam em um piscar de olhos quando eles veem um estranho muro de tijolos cobrindo quaisquer saídas do prédio onde moram.



Sem saber o que está acontecendo e como aquilo foi feito em questão de horas, Tim e Olivia tentam de tudo para poder escapar – utilizando o que têm a disposição para tentar derrubá-lo. Ao se verem em um beco sem saída, ambos percebem que a melhor chance é procurar uma saída alternativa, motivo que os leva a demolir as paredes entre os apartamentos até saírem de um bizarro confinamento. Nesse meio-tempo, eles conhecem mais um casal, Marvin (Frederick Lau) e Ana (Salber Lee Williams), um veterano de guerra chamado Sr. Oswalt (Axel Werner), que mora com a neta, Lea (Sira-Anna Faal) e um misterioso inquilino chamado Yuri (Murathan Muslu). Pouco a pouco, pistas sobre o que significa tudo aquilo começam a surgir – mostrando que nem tudo é o que parece ser.

O filme é escrito e dirigido por Philip Koch, conhecido por seu trabalho em ‘Tribes of Europa’ – e, no geral, funciona dentro de limites autoimpostos que não desejam ousar para além do necessário. Em outras palavras, a interessante e inesperada premissa não dá um passo maior que a própria perna e mantém-se naquilo que esperaríamos de um original Netflix. Os personagens arquetípicos vão surgindo a princípio rodeados de um mistério inexplicável, mas cada qual com uma pequena menção a um passado remoto ou carregando uma sutil dica que nos passa batido. Dessa maneira, Koch arquiteta uma história que é fácil de acompanhar e que, ao menos no primeiro ato, constrói um ritmo dinâmico e instigante que vai se perdendo aos poucos até uma conclusão inevitável e que não satisfaz como deveria.

Por mais que os erros se aglomerem em uma bola de neve que ganha força à medida que o enredo se desenrola, conseguimos acompanhar a ideia geral do projeto através do competente trabalho do elenco: Schweinghöfer, que ganhou popularidade com o recente ‘Army of the Dead: Invasão em Las Vegas’, nutre de uma sólida química com Fee, cada qual trilhando seu próprio caminho à medida que sofrem com a perda do bebê. O confinamento mandatório também traz à tona outros problemas pelos quais vinham passando há bastante tempo, forçando-os a enfrentar demônios internos que, como já imaginávamos, trariam uma certa clareza para como seguir adiante com o plano de escapar – e entender o que está acontecendo.

Lau, Williams e o restante do elenco têm seu momento de brilhar, ainda que existam como apoio para a trama envolvendo Tim e Olivia – e não fujam muito para além dos convencionalismos que se predispõe com o gênero. De qualquer forma, os atores se divertem com seus respectivos papéis e entregam performances bem construídas o suficiente para nos entreter. Os personagens, à medida que se apresentam para os espectadores, percebem que estão no centro de uma conspiração que envolve um sistema de nanotecnologia de segurança que, ao que tudo indica, sofreu uma falha generalizada que o ativou após um acidente local – levantando mais perguntas do que respostas. E, dessa forma, cada um age como o previsto cena a cena.

Brick pode não trazer nada de novo ao gênero que se propõe a trazer ao público, mas entretém dentro dos seus limites. É claro que o terceiro ato se mostra como o mais problemático e formulaico de todos, mas ainda assim conseguimos tirar proveito de certos momentos de glória que se espalham por pouco mais de uma hora e meia.

Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.
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