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Crítica | Netflix nos dá ADEUS a ‘Sandman’ com os novos episódios da 2ª temporada


Em meio a tantas produções memoráveis, Sandman é, com certeza, um dos títulos mais conhecidos da prolífica carreira de Neil Gaiman. Construindo uma mitologia infinita e bastante sincretista, a série de quadrinhos do icônico autor e romancista conquistou os fãs e a crítica ao redor do mundo – e ganhou uma ótima adaptação por parte da Netflix. Agora, fomos convidados a revisitar esse panteão sobrenatural e fantástico com a leva final de episódios da 2ª e última temporada, que chegou recentemente ao catálogo da plataforma de streaming.

A trama se inicia pouco depois dos chocantes que levaram Morpheus, o Mestre dos Sonhos e um dos Perpétuos (vivido por Tom Sturridge), a derramar sangue de sua própria família em um nobre ato de redenção e de perdão – colocando um fim à miserável existência do filho, Orpheus (Ruairi O’Connor). Ainda que mergulhada em um momento solene e de despedida, a atitude cometida por Morpheus é encarada como sacrilégio pelas Bondosas, um trio de deidades também conhecido como as Fúrias ou Erínias, personificações da vingança (e interpretadas por Nina Wadia, Dinita Gohil e Souad Faress). Inconformadas com a demonstração de blasfêmia cometida pelo Perpétuo, elas juram corrigir os pecados cometidos.



Mas isso não é tudo: consciente dos planos de retaliação das Bondosas, Morpheus se vê em uma missão para encontrar um substituto para o trono de Rei dos Sonhos após sua provável ruína – achando-o no infante Daniel, filha de Lyta Hall (Razane Jammal). Entretanto, o potencial da criança também atrai a atenção de Loki, o Deus da Trapaça (Freddie Fox), e Puck (Jack Gleeson), uma criatura do Reino das Fadas – que desejam transformá-lo em alguém que possam moldar. Não demora muito até que a dupla leve Lyta a acreditar que Daniel foi levado e morto pelo Mestre dos Sonhos, compelindo as Bondosas a utilizarem a devastada mãe como “avatar” na destruição de seu alvo principal.

Os cinco capítulos finais dessa incrível empreitada são sólidos o bastante para fornecer a conclusão que precisávamos – e que, de certa maneira, consegue abordar boa parte dos quadrinhos originais. Em comparação aos episódios anteriores, alguns problemas técnicos e artísticos falam mais alto, como uma pressa frenética em finalizar alguns arcos (ainda que as iterações se desenrolem por mais ou menos uma hora cada) e desequilíbrios rítmicos que influenciam na nossa experiência como um todo. Ficando responsável pela temporada completa, o diretor Jamie Childs permanece à par com o trabalho que já nos entregou e sabe manejar a câmera de maneira a nos deixar curiosos e interessados para o que acontecerá – além de singrar entre o suspense e o drama de maneira formidável.

É notável como o realizador fornece momentos tocantes que incluem uma breve interação entre Morpheus e seus pais, Tempo (Rufus Sewell) e Noite (Tanya Moodie), o retorno de rostos bastante familiares, incluindo Morte (Kirby Howell-Baptiste), Delírio (Esmé Creed-Miles), Nuala (Ann Skelly), e uma predileção pela complexidade de personagens que representam cada lado da psique humana – motivo pelo qual os nomes dos Perpétuos são imbuídos com o abstracionismo de conceitos intangíveis. E, enquanto algumas escolhas não encontram o sucesso prometido, ao menos partem de uma boa intenção e não querem dar um passo maior que a perna, preferindo se valer de convencionalismos confortáveis que têm seu valor.

O elenco, novamente, é o nosso grande foco e o aspecto de maior triunfo dos episódios de encerramento. Sturridge nos surpreende ao trazer mais profundidade à atmosfera taciturna que acompanha Morpheus, colocando-o frente a frente com a iminência de uma ruína e nos encantando cena a cena. É claro que o astro não está sozinho nessa jornada, dividindo os holofotes com os nomes mencionados dos parágrafos, além de Vivienne Acheampong despedindo-se do papel de Lucienne, assistente de Morpheus e guardiã do reino dos Sonhos; Jenna Coleman em um glorioso retorno como Johanna Constantine; e Boyd Holbrook nos encantando em uma inesperada volta como uma versão bondosa do Coríntio, que torna-se um grande aliado de Morpheus e dos outros.

É quase impossível não mencionar o gostinho agridoce que permanece desde o lançamento da leva anterior de episódios, visto que a produção foi terminada cedo demais para aqueles que gostariam de mergulhar ainda mais fundo na mitologia criada por Gaiman. Porém, é necessário afirmar que tanto Childs quanto os showrunners David S. Goyer e Allan Heinberg unem forças para fazer o máximo para entreter os fãs e finalizar a jornada de Sandman de maneira aprazível e coesa – mesmo enfrentando alguns deslizes aqui e ali.

Lembrando que o episódio bônus chega à Netflix no dia 31 de julho.

 

Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.
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