Por mais improvável que seja, o famoso poeta Vinicius de Moraes, tão conhecido por suas poesias românticas e suas belas composições para a bossa nova, foi capaz de também escrever textos que dessem margem para uma interpretação com viés no terror. E é exatamente isso que deu o mote para a série brasileira ‘Noturnos’, que chegou essa semana ao Canal Brasil.

Numa noite de chuva torrencial, o elenco de uma peça fica preso no teatro, impossibilitado de sair. Isso angustia Joana (Andrea Marquee), cuja filha tem medo do escuro e está sozinha em casa, pois a babá foi embora. Enquanto Joana fica tentando contato telefônico com sua casa, Marcus (Ícaro Silva) sugere que Tatiana (Thaia Perez), Antônio (Rafael Losso), Jorge (Bernardo de Assis), Heloísa (Vanessa Oliveira), Lauro (Rogério Britto) e Moema (Larissa Siqueira) passem o tempo de espera contando histórias de terror. Porém, através dessas narrativas, muitos gatilhos serão ativados, e nem todos ficarão no campo da ficção.

Com esse mote, os criadores Marco Dutra, Renato Fagundes e Caetano Gotardo oferecem ao espectador algo até então inimaginável e bastante original: mostrar ao grande público que Vinicius de Moraes, para além dos textos amorosos e de culto às musas, também escreveu textos mais melancólicos e obscuros, cuja leitura moderna aproxima do gênero terror, especialmente quando mescladas com os terrores cotidianos e sócio-históricos que assombram nossa sociedade brasileira desde a sua fundação. E talvez esse seja o aspecto mais interessante de ‘Noturnos’: apresentar ao grande público essa possível nova faceta do poetinha de Ipanema e construir uma ponte que dialoga com pautas bastante contemporâneas, como o racismo estrutural, o feminicídio, a relevância das produções culturais, etc.



Para tanto, o roteiro elaborado pelos criadores com a colaboração de Gabriela Amaral, Gustavo Vinagre, Alice Marcone, Rodrigo Aragão, Vinícius Silva e Aaron Salles Torres constrói dois núcleos: o do teatro, onde os personagens aguardam a chuva passar; e o das narrativas, contadas alternadamente por cada um desses personagens, que também interpretam os personagens dentro dessas histórias, mesclando ficção e metaficção numa mesma série. O resultado é uma produção bastante conceitual, metafórica, cult e com roupagem de realismo fantástico subliminar, tão recorrente na literatura latino-americana no final dos anos 1970.

Dentre os episódios, o que mais se destaca – seja pela fotografia, pela iluminação ou pela própria história – é o quarto, que tem a participação especial de Marjorie Estiano como uma misteriosa dama de vermelho com problemas de vista, em breve alusão à Medusa grega.

Em ‘Noturnos’, o conceito do terror reside na pele da produção, aparecendo pontualmente em algumas cenas, aproximando-se mais da insólita fantasia da mente humana, que, incapaz de assumir sua crueldade no cotidiano, busca no sobrenatural sua explicação. ‘Noturnos’ é uma série refinada, subliminar, que pode agradar aos estudiosos do gênero e aos curiosos por essa nova faceta de Vinicius de Moraes.



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