Richard Linklater, um dos mais adoráveis e consistentes diretores independentes norte-americanos, volta à cena internacional com Nouvelle Vague, seu novo longa exibido fora de competição no Festival de Cannes, após apresentar Blue Moon na Berlinale. Conhecido por obras profundamente humanas como Boyhood – Da Infância a Idade Adulta (2014) e a trilogia Antes do Amanhecer (1995), Linklater troca o tempo por uma homenagem ao instante: a filmagem caótica e lendária de Acossado, de Jean-Luc Godard.
Engana-se, no entanto, quem espera um mergulho profundo na estética ou ideologia do movimento nouvelle vague. Apesar do título, o que se vê em Nouvelle Vague é, acima de tudo, mais um “hangout movie” à la Linklater, com seu charme habitual, mas também suas limitações. A proposta é ambiciosa: retratar a gênese de um dos filmes mais revolucionários do cinema moderno, Acossado (À bout de souffle), sob o olhar de seu diretor-emergente Jean-Luc Godard, capturando não apenas o espírito livre e rebelde do movimento iniciado por Agnès Varda (La Pointe Courte, 1955) e François Truffaut (Os Incompreendidos, 1959), mas também o caos e a casualidade da produção e filmagens.

Rodado em elegante preto e branco, com cortes duros e uma mise-en-scène que busca ecoar a liberdade estética da nouvelle vague, o filme apresenta momentos em que esse espírito se revela — especialmente na câmera sempre em movimento, nas falas improvisadas e no elenco jovem, selecionado a dedo — mas isso raramente se traduz em algo verdadeiramente disruptivo.
Guillaume Marbeck interpreta um Jean-Luc Godard jovem, de óculos escuros eternos, egocêntrico, petulante, e ao mesmo tempo inseguro — mais um crítico da revistas Cahiers du Cinéma tentando provar que pode dirigir tão bem quanto escrever. Seu antagonismo com Jean Seberg, vivida com carisma e tensão por Zoey Deutch (único rosto conhecido do elenco), e com o produtor Georges de Beauregard (Bruno Dreyfürst), sustenta parte do conflito dramático do filme.

Há graça na desorganização dos bastidores, nas pausas intermináveis de gravação porque o diretor “está sem ideias”, no uso de uma cadeira de rodas como travelling, e todas as artimanhas de filmagem com poucos recursos. O jovem ator Aubry Dullin entrega uma interpretação encantadora de Jean-Paul Belmondo bastante reconhecível e se divertindo como se tudo fosse um jogo — talvez porque, naquele momento, fosse mesmo. O diretor r o ator se deram tão bem na vida real que trabalharam juntos em Uma Mulher É Uma Mulher (1961) e O Demônio das Onze Horas (1965).
Nouvelle Vague tenta mostrar como fazer algo revolucionário pode parecer, no momento, apenas fazer bagunça. Por vezes mais anedótico do que informativo, o roteiro parece colar episódios clássicos (como a improvisação do final de Seberg) e fait-divers que circularam em torno da produção de Acossado. Ainda que o filme ignore ou suavize muitos dos aspectos mais controversos e, por vezes, insuportáveis da personalidade de Godard — algo que O Formidável (2017), de Michel Hazanavicius, explorou com mais coragem —, Linklater prefere tratá-lo como um excêntrico indecifrável e não exatamente como o gênio difícil e misantrópico, como ficou conhecido.

Nesse sentido, talvez o maior mérito (ou a maior contradição) de Nouvelle Vague seja justamente sua suavidade. Richard Linklater entrega um filme fluido, quase asséptico, que mais lembra uma visita guiada por um museu da produção das cenas de Acossado, curiosidades documentais, do que uma imersão real no espírito revolucionário do cinema francês dos anos 60 e do movimento no título de sua obra. É mais um olhar amoroso do cineasta norte-americano sobre jovens artistas tentando criar, do que uma dissecação do movimento histórico em si.
Ao final, Nouvelle Vague não é sobre Godard, nem sobre a nouvelle vague. É sobre o mito da criação cinematográfica — esse momento mágico, caótico, ridículo e, às vezes, genial em que um grupo de pessoas decide fazer um filme, sem saber exatamente o que está fazendo. Para o público cinéfilo, a experiência é divertida, cheia de referências saborosas (como a obsessão por nomear todos os críticos e diretores da época em cartelas), mas também pode soar superficial para quem realmente conhece e acompanhou o período.
