Nos últimos anos, ‘Wicked’ tornou-se uma febre sem igual ao redor do mundo, não apenas pelas múltiplas montagens que chegaram aos palcos – incluindo uma segunda temporada no Brasil -, mas com a adaptação em live-action estrelada por Cynthia Erivo e Ariana Grande. Tornando-se um juggernaut cultural sem precedentes, não demorou muito até que a produção teatral retornasse à cidade de São Paulo com mais exibições para os inveterados fãs, além de aproveitar o trabalho de Myra Ruiz e Fabi Bang como as vozes de Elphaba e Glinda na versão dublada – que alcançaram uma popularidade ainda maior do que a já tinham quando eternizaram as bruxas de Oz pela primeira vez.
A terceira temporada começou em março desde ano no Teatro Renault e estende-se até os primeiros dias de novembro na capital paulista e, felizmente, o retorno a um dos maiores locais de entretenimento da cidade provou ser essencial para o sucesso da apresentação, apostando em uma mudança total de cenários e efeitos especiais para nos comover uma vez mais. E, considerando os incontáveis problemas de suas exibições no Teatro Santander, é interessante voltar a um vibrante e coloridos microcosmos que parece ter aprendido com os erros de um passado não muito distante e se mostra disposto a resgatar a magia outrora perdida – encontrando sucesso em quase sua completude.
Para aqueles que não se recordam ou desconhecem a trama, ‘Wicked’ nos apresenta à história não-contada das bruxas de Oz. De um lado, temos Elphaba (Ruiz), filha do Governador da Terra Munchkin, que é destratada por ter a pele verde e é olhada com inferioridade pelos outros; de outro, temos Glinda (Bang), das terras mais ao Norte, uma superficial aspirante à feiticeira que acha que o mundo gira ao seu redor. Ambas veem seu mundo virar de cabeça para baixo quando, ao entrarem para a Universidade Shiz, passam a dividir o quarto e a conviver com diferenças gritantes – que eventualmente a transformam em amigas.
Porém, Oz esconde um segredo terrível e uma perigosa conspiração política que é desvendada pouco a pouco por Elphaba – e que consegue uma reunião com o poderoso Mágico (Baccic) para lhe pedir a ajuda. Acompanhada de Glinda e determinada a colocar um fim nas oprimidas criaturas que se veem ameaçadas dia após dia, Elphaba descobre que o Mágico está por trás das artimanhas de Oz. Em um ímpeto, o feiticeiro charlatão decide utilizá-la como bode expiatório, transformando-a na inimiga pública número um e colocando a amizade da jovem com Glinda em xeque.
John Stefaniuk retorna como diretor geral do espetáculo e, como mencionado alguns parágrafos acima, corrige os deslizes que cometeu dois anos atrás, aproveitando o amplo espaço do Renault para garantir uma experiência maximizada do público – que irrompia em aplausos a cada canção performada e cada aparição das atrizes. É notável os problemas óbvios do primeiro ato, que variam desde falhas na coreografia até o ritmo descompensado que é retomado com fôlego em “Popular” e “Desafiar a Gravidade”. E, à medida que o crescendo do final da primeira parte chega às gloriosas notas finais, adentramos um sólido ato de encerramento que navega com êxito pela comédia e pelo drama.
Um dos elementos de maior sucesso são as mudanças empregadas: o cenário de Ben Cracknell ganha dimensões mais épicas, nos transportando para o mágico mundo de Oz de imediato – e não poupando despesas ao construir estruturações suntuosas e recheadas de detalhes (e que, por vezes, ajudam a ofuscar os deslizes da produção). Skylar Fox, por sua vez, contribui para os incríveis efeitos práticos do musical, abrindo espaço para uma aproximação satisfatória dos personagens com o público, encantando com fabulosas incursões e promovendo uma drástica alteração do momento-chave da peça que funciona em todos os aspectos.
Deixar de mencionar o trabalho do elenco é impossível. Pessoalmente, o showzinho particular de Ruiz e Bang na segunda temporada do espetáculo foi algo que me incomodou – e um dos meus medos para a nova versão. Todavia, enquanto as atrizes se mantêm fiéis às atuações despojadas e divertidas, em momento algum roubam os holofotes de seus colegas de elenco e até mesmo utilizaram os momentâneos erros para tirar boas risadas da plateia. Ademais, as constantes e cansativas piadas dão lugar a tiradas inteligentes e pertinentes à cena em questão, trazendo o brilho que estava em falta na temporada anterior.
‘Wicked’ retorna a São Paulo com a forte promessa de manter o hype em cima da atração vivo – e, em boa parte, consegue fazer isso. Dominando cada centímetro do Renault e nos engolfando em uma viagem de tirar o fôlego pelo mágico mundo de Oz, o espetáculo nos entretém do começo ao fim como deveria.
