Depois de uma grande quantidade de filmes que contavam as histórias das guerras em si, atualmente a indústria cinematográfica tem se interessado mais em contar as histórias dos indivíduos que participaram, direta ou indiretamente, desses conflitos. Ou seja, mais interessante do que falar das disputas territoriais, Hollywood vem buscando contar esses episódios históricos através das mentes pensantes que os proporcionaram, dos cidadãos comuns que foram afetados por essas disputas ou através das pessoas que tentaram impedir maiores tragédias. Deu muito certo com sucessos como ‘A Lista de Schindler’ e ‘1917’, por exemplo, e é também a aposta por detrás de ‘Nuremberg’, grande lançamento que chega a partir de hoje no circuito nacional.

Cidade de Nuremberg, Alemanha, 1945. Após o imediato fim da Segunda Guerra Mundial, um psiquiatra estadunidense, Douglas Kelley (Rami Malek, de ‘Bohemian Rhapsody’), é convocado para voar até a Alemanha com uma missão: avaliar psicologicamente cada um dos 22 detidos dos conflitos – todos do alto escalão do regime nazista. Dr. Kelly, assim, experencia um misto de excitação e medo: por um lado, enxerga aí uma oportunidade de fazer seu nome entrar para a história, pois poderia escrever um livro sobre o que aprendesse com seus pacientes; por outro, a ideia de encarar 22 das mentes mais perversas daquele tempo o deixava com medo – principalmente porque dentre os detentos estava Hermann Göring (Russell Crowe, de ‘Gladiador’), o braço direito do Reich.
Com um grande valor de produção – que inclui muitas locações, cenas de estúdio com dedicada construção de cenários e um elenco recheado – ‘Nuremberg’ é aquele tipo de filme que mesmo antes de assistir o expectador já suspeita de que pode ser um candidato à algumas indicações na temporada de premiações. E pode ser mesmo, afinal, todo o design de produção (a engrenagem que faz tudo se encaixar no cenário com o aspecto visual, criando a atmosfera na qual mergulhamos) realmente transporta o espectador para a época.
Baseado em eventos reais (e que já foram abordados no audiovisual algumas vezes antes), o roteiro de ‘Nuremberg’ se debruça muito mais nos conflitos morais do protagonista psiquiatra (que se vê dividido entre a condenação social desses criminosos e o fascínio pela forma como eles pensam e veem o mundo) do que na condenação dos acusados. Ou seja, o roteiro de James Vanderbilt (baseado no romance de Jack El-Hai) não busca formar a opinião do público sobre as atrocidades cometidas, mas sim mostrar o conflito interno vivido por esses personagens diante da iminência do julgamento público (que de fato aconteceu) e as estratégias buscadas por eles para encontrar alternativas à condenação por enforcamento. O percurso dessa linha de raciocínio é de fato instigante.

O que parece ter faltado um pouco ao diretor James Vanderbilt foi uma melhor preparação de seu elenco, em especial a dupla protagonista. Rami Malek por muitos momentos entrega cacoetes de Freddie Mercury que não condizem com o psiquiatra fascinado por seus pacientes, ao passo que Russel Crowe uma vez mais entrega o bonachão soturno, mas cuja transição não é gradual, não engana o espectador (apesar da história). Uma orientação geral para ambos manterem a negociação dos personagens num patamar na suspeita, da dúvida já seria o suficiente para prender mais a atenção de quem os assiste.
Mais do que falar de crimes de guerra, ‘Nuremberg’ trata do poder da oratória, da persuasão e das estratégias de tribunal (e da imprensa) que até hoje são utilizadas para a revelação da verdade. Uma história que tinha mais potencial emocional, mas que ainda assim surpreende por se tratar de eventos reais. ‘Nuremberg’ comprova que precisamos falar e entender melhor os eventos passados para que estes não voltem a ocorrer.


