sexta-feira, janeiro 9, 2026

Crítica | ‘O Estrangeiro’ – Uma obra-prima desconfortante que avança pelo ‘melô da indiferença’ [Festival de Cinema Francês do Brasil]

CríticasCrítica | 'O Estrangeiro' - Uma obra-prima desconfortante que avança pelo ‘melô da indiferença’

A natureza das relações interpessoais, sob o ponto de vista de um personagem com uma indiferença alarmante, é o alicerce de um longa-metragem denso que destrincha a morte moral do incômodo, em vez do arrependimento. Nada em O Estrangeiro, novo trabalho do cultuado cineasta francês François Ozon, é rasteiro: do amor às hipocrisias, vamos caminhando pelas camadas que se revelam através de um observador apático diante do que está ao seu redor.



Em uma Argélia do início dos anos 1930, com grande desigualdade social entre franceses e argelinos nativos, conhecemos Meursault (Benjamin Voisin, em atuação irretocável), um homem que vive seus dias com um distanciamento emocional latente em relação a toda construção de relações que estabelece. Após sua mãe morrer em um asilo, ele se reaproxima de Marie (Rebecca Marder), uma conhecida de outros tempos com quem acaba se envolvendo. No entanto, distante de qualquer vínculo mais próximo, se vê envolvido em um assassinato a sangue frio, sendo julgado e condenado.

Algumas obras do filósofo franco-argelino Albert Camus buscam reflexões profundas sobre o ser humano e os porquês da existência. Uma dessas, L’Etranger, inspira este novo trabalho de Ozon, trazendo ao público uma série de questionamentos existenciais em uma narrativa que se sobrepõe a importância do fato em relação ao detalhe, e onde a prisão é o próprio reflexo de como se sente. Outro ponto importante, o silêncio, ganha tons mais fortes do que sussurros, tornando-se constante na narrativa e ampliando a expressividade nas emoções.

Guiados por um personagem taciturno, indecifrável, cuja característica mais expressiva é a indiferença, completamente distante de esperanças, caminhamos por ares filosóficos questionadores, nos quais a justiça e a fé ganham espaço como um complemento de uma representação complexa, que se fortalece com a fotografia em preto e branco – destacando sentimentos que progridem para uma atmosfera cada vez mais angustiante.

Selecionado para o Festival de Veneza deste ano, e integrando a programação do Festival de Cinema Francês do Brasil 2025, O Estrangeiro é uma obra impressionante que traduz a essência humana sob uma perspectiva da apatia, onde o sentir tristeza e o questionar encontram a indiferença de um protagonista acomodado em não sentir nem refletir sobre o que observa.

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Raphael Camacho Crítico de Cinema
Raphael Camacho é um profissional com mais de 20 anos de experiência no mercado cinematográfico. Ao longo de sua trajetória, atuou como programador de salas de cinema, além de ter trabalhado nas áreas de distribuição e marketing de filmes. Paralelamente à sua atuação na indústria, Raphael sempre manteve sua paixão pela escrita, contribuindo com o site Cinepop, onde se consolidou como um dos colaboradores mais antigos e respeitados deste que é um dos portais de cinema mais queridos do Brasil.
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