Crítica | O Futuro Adiante – Filme argentino fala sobre cumplicidade e conflitos de amizade

Do primeiro amor, passando pela maternidade ao divórcio, o argentino O Futuro Adiante (El futuro que viene) é um conto em três atos sobre amizade entre duas mulheres com distintas características, possivelmente o que as une é também o que as repele em vários momentos da vida. Estreante na direção de um longa-metragem, Constanza Novick entrega uma obra delicada, no entanto, sem ritmo para a emoção e sem tenacidade ao drama.

Como todos os relacionamentos, a amizade é uma seara de expectativas e desilusões, a qual é quase impossível se desprender totalmente ao relembrar as intimidades compartilhadas. Assim, portanto, Romina (Dolores Fonzi) e Florencia (Pilar Gamboa) seguem os seus percursos pela vida em reencontros mesclados de alegria e mágoa.

Ao início, as meninas estão juntas ensaiando uma coreografia e ambas sonham em tornar-se bailarinas ao fim dos anos 80. Romina mora com a mãe solteira, enquanto Flor e sua irmã caçula lidam com divórcio dos pais. Ao meio disso, Flor está apaixonada por Mariano, sendo este o seu maior interesse. Enquanto Flor sonha com a sua paixonite, Romina revela em seu diário (e ao espectador) gostar do mesmo rapaz, mas deixa o caminho livre para amiga.

O fim do primeiro ato apresenta o lado egoísta de Flor e o altruísta de Romina. Em um salto temporal, Flor já é uma roteirista de telenovelas bem-sucedida que deixa o México e retorna à Argentina para fugir de um relacionamento. De favor, ela passa uma temporada na pequena casa que Romina divide com o marido (Esteban Bigliardi) e a filha recém-nascida.

Apesar dos eventuais sinais de depressão pós-parto de Romina, Flor encontra-se absorta em seus próprios problemas e dilemas, até desaparecer, de repente, e deixar a amiga desesperada, o que traça um paralelo com o final do primeiro ato.

A saga se encerra na atualidade, quando a mãe de Romina falece e deixa sua antiga casa à sua única herdeira. As amigas agora têm filhas na pré-adolescência, assim como as protagonistas no início do filme.  Esta é a melhor parte, em que a interpretação de ambas atrizes aflora na tela ao discutirem suas prioridades.

Neste último reencontro, Romina lida com o divórcio e Flor se regozija de sua vida familiar. São evidentes os conflitos e a cumplicidade entre as duas, no entanto, o filme nos toma os momentos de melhor embate retirando-os da história, como a supressão do capítulo de um livro.

É válido deixar o público conectar os pontos do enredo, mas as escolhas de cortes prejudicam o que poderiam ser os grandes momentos de emoção, exatamente o que falta ao filme. Ou seja, O Futuro Adiante é regular e frustrante, pois possui um potencial maior do que apresenta.

Longe do melodrama, a obra argentina ressalta com qualidade uma verossimilhança das relações de amizade, bem distintas daqueles amores incondicionais ou interesseiros manifestados nos filmes de Hollywood. Por outro lado, falta ao longa elementos cinematográficos que simbolizem a angústia, a culpa e a tensão das personagens.

Todos as cenas são abordadas com um tom ameno, quando a situação nos instiga a mais veemência. É difícil não comparar o enredo de Constanza Novick com a comédia dramática Amigas Para Sempre (1988), de Garry Marshall. Contudo, enquanto o lançamento deixa os elementos condutores de empatia de fora, o outro tenta arrancar lágrimas com direito a pôr do sol no horizonte e música melancólica.

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Letícia Alassë
Letícia Alassë
Crítica de Cinema desde 2012, jornalista e pesquisadora sobre comunicação, cultura e psicanálise. Mestre em Cultura e Comunicação pela Universidade Paris VIII, na França e membro da Abraccine, Fipresci e votante internacional do Globo de Ouro. Nascida no Rio de Janeiro, mas desde 2019, residente em Paris, é apaixonada por explorar o mundo tanto geograficamente quanto diante da tela.