Crítica | O Homem Mais Procurado

Crítica | O Homem Mais Procurado

Nota:
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Hoffman impressiona até o último trabalho

O thriller de espionagem O Homem Mais Procurado chega envolto em certo hype. O maior motivo para isto é se tratar do último filme completo do prestigiado Philip Seymour Hoffman, falecido em fevereiro deste ano. No último fim de semana chegou aos cinemas brasileiros O Último Concerto, drama musicado de 2012, consecutivamente adiado, também protagonizado pelo ator. Lançado igualmente este ano, o drama criminal God´s Pocket deverá aportar no Brasil no mercado de home vídeo muito provavelmente. Já as duas últimas partes da série Jogos Vorazes (o penúltimo chegando no dia 19 de novembro por aqui) tiveram a necessidade de subterfúgios, como efeitos visuais e dublês, para completar os trechos inacabados por Hoffman.

Em O Homem Mais Procurado, Hoffman vive Günther Bachmann, membro do serviço secreto alemão sediado em Hamburgo após uma missão malsucedida. Apesar da grande perspicácia, o protagonista é um personagem desgraçado, cujo tormento do fracasso profissional está impregnado e o descentraliza de seus afazeres. Em completa sintonia com a equipe, sua nova missão envolve a descoberta e captura de um possível terrorista checheno, o jovem Issa Karpov (interpretado pelo russo Grigory Dobrygin). Entra em jogo um elemento inusitado: a jornalista Annabel Ritcher (Rachel McAdams), única fonte de contato direto com o sujeito.

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Os EUA também quer uma fatia da ação, e o país aparece representado pela personagem de Robin Wright, uma alta funcionária do governo. Martha Sullivan (Wright) é outra força que pressiona o protagonista diretamente, garantindo que ele faça seu trabalho da forma mais devida. Outros personagens que merecem destaque, impulsionados por seus intérpretes, são o banqueiro Tommy Brue (Willem Dafoe) e Irna Frey (papel da alemã Nina Hoss, do filme de arte Barbara), braço direito do protagonista na agência.

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Os atores dão tudo de si, num verdadeiro show de atuações. Philip Seymour Hoffman dispensa elogios, seus maneirismos em cena prendem a atenção do espectador mais disperso. Em mais uma performance, o metódico ator devora suas cenas. Essa foi uma perda que será muito sentida pela sétima arte. Hoffman se foi muito antes do tempo, e era considerado por diversos especialistas como o melhor ator de sua geração. Aqui, fazendo uso de um sotaque alemão carregado, ele dá ênfase na corrida contra o tempo de seu personagem, e nas situações que se empilham de tremendo estresse, nos fazendo imediatamente entrar neste barco.

Rachel McAdams também quis entrar na brincadeira, confeccionando um sotaque, ou ao menos aceitando o desafio de interpretar uma alemã. Seu dialeto é um pouco mais difícil de digerirmos, mas a jovem é talentosa o suficiente para não atrapalhar o andamento da obra. Ainda na questão dos atores, o talentoso espanhol Daniel Brühl (fluente em alemão, como vimos em Bastardos Inglórios) fica relegado a um papel bem menos digno do que um ator de sua ascendência merece (ainda mais seguindo o último ano em que viveu em bons desempenhos personalidades como Niki Lauda e Daniel Berg).

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A produção é baseada num livro do autor John le Carré, espião de verdade, cujas obras literárias se transformaram em filmes de prestígio, vide O Espião que Veio do Frio (1965) e O Jardineiro Fiel (2005). Mais recentemente, O Espião que Sabia Demais (2011) escalou até o Oscar e foi enaltecido como “Missão Impossível para adultos”. O fato é verdade também para O Homem Mais Procurado, um filme de espionagem mais preocupado com o realismo de suas situações e com a forma que agentes secretos realmente operam, do que com peripécias e cenas de ação para uma plateia com déficit de atenção.

A direção é do holandês Anton Corbjin (Um Homem Misterioso). O cineasta entrega o típico suspense de espionagem, no qual se sobressai as atuações, diálogos e interações de personagens. A trama pode ser difícil de acompanhar, mesmo para o mais concentrado espectador, e talvez exija uma segunda investida para os mais meticulosos. No entanto, a produção ainda guarda trechos simplistas, de cenas, situações e diálogos. Num determinado momento de debate de patentes e disputa de poder entre Hoffman e seu superior, o protagonista entrega o clichê: “O que você sabe sobre o trabalho de campo? Já viu sangue nas ruas?”. O Homem Mais Procurado entretém e é recomendado para os fãs do gênero, mesmo sem possuir o brilhantismo estético de O Espião que Sabia Demais.