Nos últimos anos, diversos filmes europeus – e, mais especificamente, franceses – têm abordado o tema da imigração na Europa, tanto sob a ótica dos imigrantes quanto sob a perspectiva de quem já mora no continente. A razão dessa temática estar sendo retratada com tanta frequência é porque a realidade do continente está cada vez mais atrelada à mistura das diversas culturas que se instalaram naquele território – culturas estas que trazem consigo novas línguas, novas religiões, novos costumes etc, em comparação aos que ali já viviam.

É nessa pegada que ‘O Jovem Ahmed’ chega aos cinemas, retratando o conturbado cotidiano de Ahmed (Idir Ben Addi, convincente como um rapaz inseguro), um jovem adolescente profundamente dedicado à reza e aos estudos da religião islâmica. Já na primeira cena o espectador é confrontado com uma situação cotidiana que, em um primeiro momento parece ser apenas introdutória, mas que mostra o quanto o contraste social está profundamente enraizado no dia a dia do cidadão europeu: Ahmed está na escola, e sua professora, Sra. Ives (Myriem Akeddiou), o está ajudando na lição quando, de repente, Ahmed se levanta e vai embora, sem se despedir. Então, na cena seguinte, é explicado ao espectador que a atitude do protagonista tem a ver com seu horário de reza (cumprido pontualmente) e que ele não quer mais apertar a mão da professora para se despedir porque seu imã (orientador religioso no islamismo) lhe disse que no islamismo o homem só pode tocar na mãe, na irmã ou na esposa, e não deve dirigir a palavra a nenhuma outra mulher.

Essa cena inicial dá o tom do roteiro e da direção de Jean-Pierre e Luc Dardenne, que busca retratar o quanto a irresponsabilidade juvenil, somada ao aproveitamento de pessoas mal intencionadas (sob a desculpa de orientação religiosa) está fundando uma geração de jovens totalmente alienados socialmente, porém extremamente dedicados à uma interpretação extremista das religiões – o que, por sua vez, gera ainda mais conflitos sociais e dificuldades de adaptação cultural no continente europeu.

Aproveite para assistir:

Mais do que papéis memoráveis ou cenas chocantes, ‘O Jovem Ahmed’ propõe uma reflexão do cotidiano, através de uma crônica inocente de um adolescente influenciável pelo seu meio. Embora a época de sua estreia não seja favorável (em pleno carnaval!), o filme é um bom material para ajudar a entender como a atual e as próximas gerações europeias estão sendo constituídas: com base no medo do outro e da imposição de uma única visão/doutrina/vontade sobre os demais. Nesse sentido, o filme faz um importante alerta sobre a influência de doutrinas extremistas na vida dos jovens imigrantes sedentos por se sentirem pertencentes a algum lugar.

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