‘O Mago do Kremlin’ parte de uma premissa bastante “simples”, no sentido pragmático do termo: baseado no romance de mesmo nome de Giuliano da Empoli, o projeto é inspirado na vida do político e empresário Vladislav Surkov, aqui reimaginado como o protagonista Vadim Baranov (Paul Dano). Tendo sido um jovem apaixonado pelas artes, Vadim ingressou na política da maneira mais inesperada possível e se tornou braço-direito de Vladimir Putin (Jude Law), ajudando-o a ascender à presidência da Rússia num período em que o poder era tudo o que importava para garantir a soberania do país frente às crescentes investidas estadunidenses.
A narrativa nos convida para uma jornada pelo comportamento polvoroso do território russo entre as décadas de 1970 e 2010, utilizando Vadim como guia. Exilado de aparições públicas, ele é visitado pelo acadêmico Rowland (Jeffrey Wright), que, em visita a Moscou, é convocado pelo ex-político a ouvir sua versão de um complexo e intrincado enredo que ainda está longe de terminar. A partir de então, o protagonista devaneia sobre como cada uma de suas ações culminou em um exílio no esquecimento e numa cíclica letargia existencialista. O problema é que, apesar da densa atmosfera que se estende por quase duas horas e meia de tela, o filme não tem ideia de qual caminho quer seguir.

Toda a estrutura do longa-metragem é pautada em uma análise histórica e ideológica bastante clara e que, assim como o livro original, escolhe uma perspectiva particular que é delineada através de vários capítulos. Dessa maneira, acompanhando os escritos de De Empoli, há uma afeição significativa pela explosiva mistura entre suspense político e drama satírico que, de certa maneira, escolhe a veracidade como ponto de remodelação revisionista. Não é surpresa que a trama seja acompanhada de um narrador em primeira pessoa que traz a subjetividade de sua vivência para comover o público – abrindo espaço para a efervescência revolucionária dos anos 1990 à afasia política que colocou em xeque as relações de poder mundiais.
Olivier Assayas fica a encargo da direção – e o realizador não é nenhum estranho a ambiciosos projetos cinematográficos. Responsável por títulos voltados para um âmbito mais conceitual, como ‘Personal Shopper’, ‘Vidas Duplas’ e ‘Irma Vep’, o cineasta parece ter se esquecido de um elemento imprescindível de suas obras anteriores para sua nova incursão: o objetivo. Ainda que essa inflexão semibiográfica conte com pontuais ápices criativos, nada justifica a existência do projeto como ele é – ou seja, assemelhando-se a uma aula de História ou uma página de enciclopédia do que um produto que traga o mínimo de originalidade. Em outras palavras, a disposição soa engessada demais para escapar dos convencionalismos, rendendo-se a várias redundâncias e repetições.

Eventualmente, percebemos uma preocupação maior com a estética do que com o conteúdo: Assayas constrói planos que beiram a contemplação niilista ao engolfar os espectadores no isolamento social do frio e da neve – e acerta em boa parte deles, aproveitando a memorabília de que Vadim se dispõe para pulsões de tensão e de instabilidade. Porém, coassinando o roteiro com Emmanuel Carrère, o realizador se apoia demais em metáforas vencidas e diálogos previsíveis que não têm qualquer lugar dentro de um projeto como esse – e que promovem uma frustrante unidimensionalidade aos personagens.
De qualquer forma, há certos aspectos que merecem nossa atenção, com destaque quase absoluto ao trabalho elenco. Dano entrega uma performance impecável que transforma até mesmo as falas mais sem brilho em potentes discursos sobre as engrenagens que regem o planeta e que se agravam dia após dia – principalmente com as investidas controversas que Putin defende e que colocam um ponto de interrogação no verdadeiro impacto das decisões de Vadim. Law, por sua vez, oferece uma assombrosa interpretação do atual presidente da Rússia, trazendo mais peso à narrativa. E, junto a eles, Wright, Alicia Vikander, Will Keen e Tom Sturridge têm cada um seu momento de brilhar, oferecendo alguns vislumbres de profundidade.

É claro que Assayas adota um viés óbvio para singrar entre a realidade e a ficção, optando por uma abordagem melodramática como forma de assegurar a atenção do público. Todavia, o resultado de ‘O Mago do Kremlin’ fica no meio do caminho: o longa não chega a ser ruim, mas não traz nada de novo ao gênero, construindo uma adaptação profusa que se beneficia do comprometimento do elenco para o mínimo de entretenimento.
Lembrando que o filme chega aos cinemas nacionais em 9 de abril.


