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Crítica | O Pai – Um Sensível Filme sobre a Perlaboração da Perda


Durante o período de reclusão social, o cinema Petras Belas Artes, de São Paulo, criou sua própria plataforma de streaming, o Petra Belas a la Carte, que em abril esteve com seus filmes disponíveis gratuitamente para novos assinantes e a partir de maio passará a disponibilizar quatro novos filmes semanais ao seu catálogo, especializado em filmes cults e línguas estrangeiras. É o caso de ‘O Pai’, da Bulgária, que chegou na última quinta-feira à plataforma de cinema em casa.

Previsto inicialmente para estrear em tela grande, o longa conta a história de um pai e um filho que não possuem um bom relacionamento, e essa relação é profundamente abalada pela morte repentina da mãe. Sem saber como lidar com a situação, Pavel (Ivan Barnev) viaja para a casa dos pais para assistir ao funeral da mãe. Só que a momento pelo qual sua família está passando fica ainda pior quando o pai, Vasil Angelov (Ivan Savov) rejeita sua presença e entra num estado de negação sobre a morte da esposa.



Com uma sensibilidade crua e realista, o roteiro de Kristina Grozeva (que também dirigiu o longa, conjuntamente com Petar Valchanov) trabalha o luto e a perlaboração de maneira direta e humana – e, portanto, cheia de defeitos e imperfeições. Ao colocar pai e filho juntos para atravessarem uma fatalidade inevitável, o roteiro retrata todo tipo de dificuldade que o ser humano pode vir a se deparar diante da morte: a dor da perda; a culpa pelas últimas palavras não ditas; a raiva de não poder fazer nada; a negação em aceitar o que aconteceu; a alienação, que nos faz querer se agarrar ao primeiro guru que se diz capaz de trazer mensagens dos parentes queridos; a rejeição a todo tipo de ajuda oferecida; a tristeza e a apatia, que vêm da saudade de não mais encontrarmos quem amamos.

Em vez de criar um clima pesado, ‘O Pai’ apresenta todas essas situações com pinceladas de humor e de drama. Através do turbilhão de sentimentos que o pai Vasil enfrenta para tentar perlaborar a dor da perda de sua esposa – somado às atitudes igualmente vertiginosas do filho Pavel, que tenta de todas as maneiras controlar os surtos do pai – o filme faz o espectador refletir sobre a pequenez humana diante do incontrolável, mostrando que, no final, tudo o que temos é o amor que cativamos nas pessoas que conhecemos na nossa vida.

Com uma hora e meia de duração e todo falado em búlgaro, ‘O Pai’ é um filme extremamente humano, com uma bonita mensagem para esses tempos difíceis. Vale a pena assistir.

Janda Montenegrohttps://cinepop.com.br
Janda Montenegro é doutora-pesquisadora em Literatura Brasileira no Programa de Pós-Graduação em Letras da UFRJ com ênfase nas literaturas preta e indígenas de autoria brasileira contemporâneas. De origem peruana amazônica, Janda é uma palavra em tupi que significa “voar”. Desde 2018 trabalha como crítica de cinema nos portais CinePOP e Cabine Secreta. É curadora, repórter cultural, assistente de direção e roteirista. Co-proprietária da produtora Cabine Secreta e autora dos romances Antes do 174 (2010), O Incrível Mundo do Senhor da Chuva (2011); Por enquanto, adeus (2013); A Love Tale (2014); Três Dias Para Sempre (2015); Um Coração para o Homem de Lata (2016); Aconteceu Naquele Natal (2018,). O Último Adeus (2023). Cinéfila desde pequena, escreve seus textos sem usar chat GPT e já entrevistou centenas de artistas, dentre os quais Xuxa, Viola Davis, Willem Dafoe, Luca Guadanigno e Dakota Johnson.
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