Álex Pina ganhou fama inegável em 2017 com o lançamento de ‘La Casa de Papel’, uma das séries mais populares da Netflix. Alcançando proeminência significativa, o sucesso da gigante do streaming logo abriu portas para que Pina construísse outras narrativas elogiadas pela crítica e pelo público, como ‘Vis a Vis’ e ‘Sky Rojo’. Agora, o showrunner retorna para mais uma parceria com a plataforma com o suspense ‘O Refúgio Atômico’, que estreou no último dia 19 de setembro. Apoiando-se na popularização contínua de histórias conspiracionistas e do crescente e derradeiro sentimento do fim inevitável do mundo como o conhecemos, a narrativa segue as tendências mainstream em uma sucessão de reviravoltas inesperadas e comentários ácidos sobre a sociedade em si.
Na iminência de uma guerra atômica, um grupo de bilionários espanhóis é levado a um bunker subterrâneo para se protegerem dos corolários destrutivos das bombas, protegendo-se da radiação e com uma remota chance de sobreviver. Tendo financiado a construção desse refúgio, a elite é encaminhada para observar, a salvo, enquanto a humanidade é destruída pela própria ambição e pelas tendências autodestrutivas que existem desde sempre. O problema é que nada disso é verdade: na verdade, esses bilionários foram enganados a acreditar que precisavam preservar seu inestimável patrimônio, arrastados para um experimento social que cria uma realidade pós-apocalíptica e os trata como ratos de laboratórios.

Confinados em um labiríntico inferno particular, as tensões escalam a níveis incontroláveis à medida que fantasmas de um passado não muito distante revelam ressentimentos perigosos, traumas inescapáveis e ímpetos violentos que exploram o que acontece que um indivíduo é forçado ao limite de sua moral frente a situações terminantes. É a partir daí que somos engolfados em múltiplas tramas que revelam os verdadeiros planos por trás da construção do bunker, oferecendo uma análise antropológica sobre a essência do ser humano quando movido pelo desejo de vingança e de mudanças radicais e uma perspectiva sobre luta de classes e a predação social.
Por trás desse ambicioso escopo, o público é apresentado a vários arcos que envolvem os protagonistas e coadjuvantes. Um dos principais envolve Max (Pau Simon), um jovem que ficou três anos preso pela morte da namorada em um acidente de carro envolvendo bebidas e drogas, e que, pelas alegações de bom comportamento compradas pela família bilionária, conseguiu sair do cárcere para ser levado ao bunker ao lado do pai, Rafa (Carlos Santos), da mãe, Frida (Natalia Verbeke), e da avó, Victoria (Montse Guallar). O problema é que o pai e a irmã da falecida namorada, Guillermo (Joaquín Furriel) e Asia (Alícia Falcó), também estão no bunker e enxergam Max como um assassino que ainda não pagou pelos crimes que cometeu.

Tentando descobrir como irão conviver pelos próximos dez anos em facilidades a quase trezentos metros abaixo da terra, eles são acompanhados por outros membros da elite espanhola e são assistidos pela misteriosa Minerva (Miren Ibarguren), que controla a instalação com condescendência e uma defesa da felicidade como recurso de salvação – e conduzindo-os para uma protegida sala em formato de arena onde observam, impotentes, o mundo ser obliterado. E é a partir daí que a primeira reviravolta da narrativa toma forma em um glorioso episódio piloto: Minerva, na verdade, é líder de um grupo dissidente que resolve enfrentar os malefícios do capitalismo de maneira categórica e incisiva, fazendo os bilionários acreditarem no fim do mundo através de um espetáculo minuciosamente encenado.
Como podemos perceber, Pina tem um apreço significativo por colocar seus personagens em situações de puro estudo sociopolítico e como peças da complexa engrenagem que rege a realidade como a conhecemos. Enquanto ‘La Casa de Papel’ denotou seus comentários sobre medidas desesperadas como consequência de tempos desesperadores, ‘O Refúgio Atômico’ mostrou-se mais claro e direto às críticas construídas, chegando a tangenciar uma proposital e exagerada teatralidade para arquitetar uma atmosfera quase retrofuturista e movida a arquétipos que são bastante conhecidos dentro do gênero retratado. E, mesmo que de maneira inadvertida, o suspense abre espaço para ácidas tiradas cômicas que reiteram a dúbia ambientação da série.

O showrunner se une mais uma vez a Esther Martínez Lobato para delinear a narrativa, e, ainda que tropece aqui e ali, a dupla constrói um enredo que nos envolve logo nos primeiros minutos e que tem plena ciência da história que está construindo. E, enquanto algumas escolhas parecem impalpáveis demais, os deslizes são ofuscados pelo ótimo trabalho do elenco, com destaque às atuações precisas de Simon, Furriel e Iberguren, cujos traços são imbuídos de uma exploração determinista a que cada um é envolvido. E, singrando por pulsões que transformam os conceitos de espetacularização e de enfrentamento do status quo em uma pungente e envolvente jornada pela sobrevivência e pela vitória do mais forte.
‘O Refúgio Atômico’ é uma boa adição ao catálogo da Netflix e mais um acerto da parceria entre a plataforma de streaming e Pina. Ainda que não seja impecável, os temas esquadrinhados e as ótimas atuações são aprazíveis o suficiente para nos envolver do começo ao fim.
