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Crítica | ‘Olhos de Wakanda’ é uma boa antologia que acerta e ESCORREGA na mesma medida


Após sua estreia em 2018, Pantera Negra realmente elevou o nível das produções da Marvel Studios ao não apenas se tornou uma das adaptações de HQs mais aclamadas de todos os tempos, como fez história nas principais premiações ao redor do planeta. Não é surpresa que o sucesso imensurável do longa-metragem culminou em uma sequência, Pantera Negra: Wakanda para Sempre’, expandindo a mitologia e introduzindo personagens como Riri Williams (Dominique Thorne) – que viria a protagonizar sua própria série, ‘Coração de Ferro’. E, continuando essas ramificações, somos convidados a conhecer a antologia animada Olhos de Wakanda, que chegou hoje, 1º de agosto, ao catálogo do Disney+.

Através de quatro breves episódios, o projeto navega por aventuras inéditas que se mantêm fiéis ao que já sabemos sobre Wakanda à medida que dá espaço para um grupo conhecido como Hatut Zaraze (Cães de Guerra, na tradução) e uma apaixonante preocupação artística que se equilibra entre a modernidade e o clássico. Há certos deslizes que aparecem mais de uma vez e convencionalismos difíceis de serem varridos para debaixo do tapete – mas o objetivo aqui é garantir um encontro entre passado e presente em um apreço notável por peripécias, cenas de ação bem coreografadas e uma familiaridade aprazível o bastante para nos manter instigados. E, conforme nos aproximamos do final, as tramas convergem para um ponto em comum que abre ainda mais portas para o Universo Cinemático Marvel.

Criada por Todd Harris, a atração bebe bastante de outra recente animação da plataforma de streaming‘Predador: Assassino de Assassinos’. Todavia, essa similaridade não se confere à atmosfera construída, e sim ao fato de convidar o público a uma jornada pelo tempo e pelo espaço, recontando histórias muito conhecidas com um toque de fantasia e de magia. Dessa maneira, passeamos por Creta de 1260 a.C., em que uma guerreira Dora Milaje desonrada recebe a missão de encontrar um dissidente wakandano que se tornou um ditador opressor; pela Grécia Antiga, onde somos convidados a conhecer uma “narrativa não contada” do mito de Aquiles; pela China imperial, em que um soldado enfrenta uma ameaça inesperada ao reaver uma importante relíquia; e pela Guerra Ítalo-Etíope, cujas consequências reverberam quase setecentos anos mais tarde.



Harris não é nenhum novato no gênero super-heroico, mas faz sua estreia como showrunner após ter trabalhado no departamento artístico de títulos como Pantera Negra e ‘Vingadores: Ultimato’, além de ter sido escalado como membro da equipe criativa do subestimado ‘Trem-Bala’, filme de ação estrelado por Brad Pitt. Dessa maneira, o criador tem contato o suficiente com obras do gênero para fornecer uma perspectiva diferenciada em alguns elementos, mas que joga na zona de conforto para garantir um total aproveitamento pelos espectadores. E, comandando todos os capítulos da minissérie, Harris esquadrinha um caminho que desfaz as linhas do tempo-espaço em um atemporal e burlesco espetáculo visual.

De fato, não há muito de novo em se ver por aqui e, da mesma maneira que acerta em cheio em certos quesitos, a animação escorrega em problemas de ritmo e em convencionalismos excessivos que mancham uma bela e ambiciosa estrutura. O primeiro e o terceiro episódios têm um sólido início que soa como uma arquitetura em videogame ganhando vida, em que cada cena convida a presença do público de maneira quase ativa; porém, os incontáveis diálogos e os arquétipos engessados de seus respectivos personagens não conseguem sustentar o que prometem e nos deixam com um gosto agridoce de frustração. Em compensação, o segundo e o quarto capítulos aproveitam seus respectivos backgrounds para focar no entretenimento e em arcos bem construídos e envolventes dentro dos limites de sua dimensionalidade.

É notável como o esmero artístico fala mais alto, permitindo que as técnicas em 3D vibrem em uma explosão de cores e uma escolha on point de figurinos e acessórios que correspondam à imensa contribuição de Wakanda para o planeta – desde os aparatos tecnológicos a um elaborado arsenal bélico. Dessa maneira, o enredo é “deixado de lado” e recebe um tratamento simplificado; mas percebemos um comprometimento significativo do elenco, que inclui Winnie Harlow como a rebelde Noni, protagonista do episódio de estreia; Cress Williams como o poderoso e psicótico antagonista Leão; Jona Xiao como Jorani, uma guerreira chinesa que funciona como outra versão do Punho de Ferro; e Zeke Alton como o irrefreável e inconsequente Príncipe Tafari.

Olhos de Wakanda pode ter um número considerável de deslizes, mas em momento algum deseja dar um passo maior que a perna, optando por se posicionar em uma zona confortável e que entregue aos fãs do MCU o que eles esperam – histórias bem-intencionadas de aventura e ação, pinceladas com a dosagem correta de quebras de expectativa e o coração no lugar certo.

Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.
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