Cuidado: spoilers à frente.
‘Only Murders in the Building’ alcançou um status prestígio considerável por inúmeras razões: além das ótimas narrativas que apresentaram uma mistura perfeita entre comédia, mistério e suspense, e de atuações impecáveis do trio de ouro formado por Steve Martin, Martin Short e Selena Gomez, mas de um elenco que varia temporada a temporada e que nos encanta com performances arrebatadoras e personagens memoráveis. E é claro que teríamos isso com a chegada do quarto episódio da 5ª temporada da série.
Os três primeiros capítulos do novo ciclo nos introduziram ao mistério envolvendo o assassinato do adorado porteiro Lester Coluca (Teddy Coluca) e de um dos líderes da máfia nova-iorquina contemporânea, Nicky Caccimelio (Bobby Cannavale). Como ficou claro na semana passada, ambos os homicídios estão conectados, enquanto a relação profissional e de “quase amizade” entre Lester e Nicky pode ter premeditado a morte de ambos. Mais do que isso, Charles (Martin), Oliver (Short) e Mabel (Gomez) descobriram uma espécie de cassino secreto conhecido como A Sala de Veludo no subterrâneo do Arconia, onde bilionários, mafiosos e empresários se reuniam – e continuam a se reunir – para decisões importantes e cabulosas. E é aí que somos oficialmente introduzidos aos novos antagonistas dessa narrativa da maneira mais perfeita e envolvente que podemos imaginar.
Pouco depois de encontrarem pistas valiosas no cômodo secreto, os detetives são surpreendidos com a inesperada visita de três conhecidos e poderosos nomes: Camila White (Renée Zellweger), uma ambiciosa e bilionária designer empreendedora; Jay Pflug (Logan Lerman), um nepobaby herdeiro de uma empresa farmacêutica multibilionária; e Bash Steed (Christoph Waltz), um gênio da tecnologia implacável e calculista. Após conseguirem fugir da sala, eles são abordados pelo grupo, tentando impedir que os nossos heróis investiguem a possível relação entre eles e as vítimas ao fornecer seu lado da história. Charles, Oliver e Mabel, então, decidem aproveitar a oportunidade para entrevistá-los e, com sorte, arrancar informações de vital importância para continuarem o caso. Porém, as coisas não saem exatamente como o planejado – e a história de um não diverge do outro, sem muitas suspeitas e perguntas levantadas.
O que eles não imaginavam é que, durante a conversa, Camila, Jay e Bash utilizaram seu charme para coletar detalhes aparentemente inofensivos sobre a investigação dos detetives, incluindo o fato de que Mabel estava tentando fechar um contrato com a plataforma de streaming Wondify para impulsionar a popularidade do podcast. Não demorou muito até que ela conseguisse o que queria, levando Charles e Oliver ao escritório para fechar contrato – até descobrirem que os bilionários que os visitaram se tornaram acionistas majoritários, impedindo-os de serem mencionados em qualquer episódio do programa, mostrando que, na verdade, estavam manipulando todas as peças do jogo.
A princípio, o episódio dirigido por Chris Koch e assinado por Kristin Newman recua alguns passos e apresenta um ritmo mais centrado e restrito, apostando fichas nas discussões de investigação entre Charles, Oliver e Mora à medida que os coloca em conflito com a presença enigmática dos misteriosos e ardilosos antagonistas. Ainda que mantenha um nível suficiente de sarcasmo e ironia através de diálogos categóricos, o tom é mais puxado para o drama do que para a comédia – uma das belezas incompreendidas da série como um todo – e parece nos preparar para alguma coisa que ainda desconhecemos. Eventualmente, tudo se concretiza com a reviravolta final, chocando os espectadores ao virar as mesas do jogo de maneira abrupta e chocante.
A escolha de construir um ritmo crescente em vez de nos engolfar em um frenesi incontrolável é certeira em todos os momentos e mostra que tanto Koch quanto Newman sabiam o que estavam fazendo. Afinal, dessa forma, podemos apreciar a introdução de atores de peso para essa sangrenta jornada – e o destaque da semana vai para o trabalho irretocável dos recém-chegados. Zellweger, que já conquistou duas estatuetas do Oscar, pega páginas emprestadas de seu trabalho na novelesca série ‘Dilema’, refinando a teatralidade com sutilezas apaixonantes que floreiam a presença de Camila; Waltz, considerado um dos maiores atores de todos os tempos, diverte-se como Bash e demonstra uma alteridade performática que nos chama a atenção de imediato; e Lerman, que vem passando por um renascimento em sua carreira, transforma Jay em um charmoso jovem que nos fisga da mesma maneira que faz com Mabel.
‘Only Murders in the Building’ retorna esta semana com um episódio simplesmente irretocável e que usa e abusa de uma criatividade sem fim de seu time técnico e artístico – e que, agora, tem espaço de sobra para brincar com seus atores estelares que, sem sombra de dúvida, farão um trabalho aplaudível até o final da temporada.
